terça-feira, 9 de agosto de 2011

III Encontro de Estudos da Palavra Cantada

O III Encontro de Estudos da Palavra Cantada tem como objetivo central promover a reflexão sobre as múltiplas e heterogêneas modalidades da palavra cantada, a partir de abordagens que permitam apreender a interação entre suas dimensões verbal, musical, vocal e performática.

A programaçao inclui a conferência de abertura pelo professor e etnomusicólogo Anthony Seeger, da University of California em Los Angeles, cujas análises sobre as artes verbomusicais de povos indígenas do Brasil são referência para os interessados na matéria, e palestras, no encerramento, do professor Stéphane Hirschi, da Université de Valenciennes, especialista nas relações entre poesia e canção, e do professor e compositor José Miguel Wisnik, amplamente reconhecido por seu trabalho criativo e investigativo nos domínios literários e musicais.

Mais detalhes sobre o programa de palestras e dos pequenos recitais de artistas que serão oferecidos no final de cada dia do evento, assim como um formulário de inscriçao, encontram-se no seguinte endereço: http://palavracantada3.wordpress.com/.

O evento acontecerá no Rio de Janeiro, de 23 a 26 de agosto, no Salão Pedro Calmon, Fórum de Ciência e Cultura, Campus da UFRJ na Urca.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Submissão de resumos - IV Semana de Letras

O Centro Acadêmico de Letras informa que a submissão de resumos para apresentação na IV Semana de Letras acontecerá entre os dias 01 de julho e 10 de agosto de 2011. O evento acontecerá nos dias 19, 20 e 21 de outubro.
As regras para o envio estão no endereço:
www.semanadeletrasufjf.wordpress.com.

Atenciosamente,
Comissão Organizadora.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Avaliação final

Oficina: poesia e canção popular
(avaliação)

Apresentamos, em anexo, dois fragmentos do livro “Poema sujo”, de Ferreira Gullar. Ambos possuem interfaces musicais. O primeiro deles (p. 298-9) foi musicado por Milton Nascimento e resultou na canção “Bela Bela”. O segundo (p. 316-317) é um trecho que, conforme o próprio poema indica, deve ser cantado com a “Tocata” da Bachiana no. 2, de Villa-Lobos.

Após a audição das duas gravações e leitura dos trechos, avalie:

1) Ter participado dessa oficina o(a) deixou mais apto(a) para analisar elementos da interface entre música e poesia? Caso negativo, diga por quê. Caso afirmativo, indique alguns desses elementos, objetos de sua percepção na leitura e na audição propostas acima.

2) Apresente, de forma breve, as ideias que você tenha desenvolvido, a partir da participação na oficina, sobre as consequências do uso da canção, em sala de aula, para o ensino de literatura e/ou língua.

3) Faça uma breve avaliação através da qual considere aspectos positivos e negativos do trabalho proposto e desenvolvido na oficina.

4) Faça uma breve auto-avaliação, considerando sua frequência e sua participação nos encontros da oficina.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Vandré "Das Terras do Benvirá": Utopia e Barbárie na MPB

Segue abaixo um texto que eu postei há algum tempo num blog meu sobre música que anda jogado às traças. São impressões sobre um disco do Vandré feito já no exílio. Vai como contribuição sobre o tema do encontro da sexta-passada. Abraços!

(Edson Leão)

Apesar da minha filiação ao tropicalismo e ao rock, como algumas das minhas principais influências, sempre me impressionou a força épica que a voz e melodias de Geraldo Vandré (representante fundamental da “canção de protesto”) imprimiam a seus versos contundentes. Particularmente me marcou muito a intensidade e integridade do álbum “Canto Geral” (1968), ao passo que este “Nas terras do benvirá”, que ouvi pela primeira vez na mesma época em que conheci o anterior, sempre me pareceu um pouco inacessível. Arrastado, triste, sombrio e sempre em tom de lamento, ele não me conquistou nas primeiras tentativas, embora de tempos em tempos eu retornasse a ele, talvez por algum incomodo profundo que ele me causasse.


Hoje à luz de uma nova audição, quase três décadas após a aquisição do vinil, e talvez, sensibilizado pelo excepcional documentário “Utopia e Barbárie”( de Silvio Tendler) fui arrebatado exatamente pelos mesmos aspectos que me afastaram nas primeiras tentativas (mistérios da experiência estética!). Numa despretensiosa retomada desta obra, já nos primeiros minutos ela me soou como um dos mais dramáticos registros do sentimento de toda uma geração, diante da barbárie imposta pela ditadura.


Inevitável não me remeter ao mistério que cerca a figura do compositor, entre lendas (descartadas pelo próprio) sobre torturas (que teriam culminado em castração e na conseqüente loucura - também desmentidas por ele), o silêncio artístico de décadas (quebrado pela estranheza de uma canção em homenagem à Força Aérea), e o isolamento pessoal e em relação à música popular (já que segundo o próprio, ele teria se tornado ouvinte de música clássica, e se desinteressado pela MPB).


Respeitado o direito de um homem, de dar sua própria versão sobre sua história, ou mesmo o direito de silenciar sobre ela, me sinto no entanto, no também no direito de manifestar meus sentimentos ao ouvir novamente este desconcertante álbum.

Na minha impressão de ouvinte, poucos discos transmitem, com uma carga de dor tão profunda, o sentimento de uma geração que teve sonhos, liberdades e até vidas ceifadas pela ditadura.


O simples fato de ter sido gravado em pleno exílio, nos primeiros anos da década de 70 (os créditos são de 73, mas cheguei a achar referências de que teria sido gravado na França em 1970 e só lançado no Brasil, 3 anos mais tarde), já permitiria uma leitura nesse sentido, mas o principal aval para uma interpretação dessa natureza está nas características estéticas que predominam no LP.


A instrumentação, predominantemente arrastada e melancólica, compõe um tecido sombrio que flui como um lamento visceral que não pode (ou não quer) se conter e que parece não se esgotar em cada canção... parece antes, continuar mesmo após o fim de cada faixa, seja porque o sentimento segue na memória, após a audição, como um moto perpétuo... seja porque prossegue na canção seguinte, da mesma forma que os dias de uma tristeza não curada se sucedem quase indistintos para quem os vivencia.


A interpretação de Vandré que oscila entre o sussurro e o grito parece à todo momento um choro viril, como o de um guerreiro ferido em combate, em diálogo constante com a harmônica, de uma tristeza cortante, entrelaçada aos fraseados melancólicos dos violões, violas e aos eventuais vocais sobrepostos.


Em aparente contradição com o que o tratamento musical aponta, o texto da canção de abertura “Na terra como no céu”, anuncia: “Não viemos por teu pranto/nem viemos pra chorar/viemos ao teu encontro/e estamos no teu altar/vou seguir nosso caminho/que é também seu caminhar/na força do teu carinho/esperamos nos salvar/na terra como no céu/no sertão como no mar/nas serrar ou nas planuras/esperamos nos salvar/estando sempre altura/nos teus caminhos lutar/reparte entre nós o pão/diante do seu altar/a justiça e a riqueza/que fizemos por ganhar”(...).


A busca por justiça social que pautou os principais trabalhos sessentistas de Vandré se mntém como força motriz, mas o tom de súplica religiosa, não oculta um certo sentimento de impotência diante da realidade:”não deixa a gente passar/pela fome em tua mesa/não viemos por teu pranto/nem viemos pra chorar”. Curiosamente, a essa frase se segue um belissimo e sofrido vocal que arrepia por seu tom de lamento. Contradição, ou intencional efeito irônico?


É dificil não associar os versos sofridos que se seguem (na faixa que dá título ao disco) ao contexto de ditadura, de censura e o momento de um homem que canta no exílio: “O anel que tu me deste/eu guardei pra me ajudar/construi numa viola/de madeira o teu altar/o amor que tu me tinhas/eu roubei pra me salvar/toda hora em que a danada da saudade/me pegá/Joema dos olho claros/bem verdes da cor do mar/me dava tanta alegria/que eu não preciso sonhar/basta me lembrar agora/das coisas que deixei lá/Joema sempre esperando/na praia do grande mar/Waldomiro das estrelas/não podia se encontrar/tinha tudo que queria/dizia tudo há pintar/olhando pro céu de frente/perdido sempre em chegar/Waldomiro das estrelas/pedia para voltar”.


A certeza messiânica de quem escreveu “quem sabe faz a hora/ não espera acontecer”, ou “o terreiro lá de casa não se varre com vassoura/varre com ponta de sabre e bala de metralhadora”, dá lugar à perplexidade e a um desamparo que pede por redenção: “que faço agora Maria/que faço agora diz já/ de longe que eu ouço hoje/as coisas que vão voltar/em ti em ti e comigo/agora no Deus dará/das coisas de todo mundo/na vida do bendirá”


Mas o tom aguerrido do militante da “canção de protesto” permanece vivo em “Vem vem” : “morena saia da frente/que agora eu já vou passar/vem vem maria/vem vem joão/
vem virgulino meu capitão/eu canto canto/eu brigo a briga/porque sou forte e tenho razão/saia da minha frente/que agora eu quero passar/vai companheiro/vai meu irmão/no paraíso canta a canção/que diz da vida/que diz da morte/que anda solta no meu sertão/vem vem maria/vem vem joão/vem virgulino meu capitão/eu tomo a vida que esta na morte/se a morte as vezes é solução”. A retomada da figura mítica do cangaceiro pode sugerir uma analogia com a condição de marginalidade à qual fora relegada a resistência política ao regime. Contra a violência estatal, só a violência clandestina que se torna aos olhos da oficialidade, análoga ao “banditismo”?


E a dor do exílio salta de novo das entrelhinhas de “Canção primeira”, assim como a impossibilidade de ações efetivas que encontram seu substituto simbólico na “canção primeira/ livre e livradeira”: “A canção primeira/como a derradeira/não vá, te negar/A canção primeira/sem eira e nem beira/é só te lembrar/Na viola amiga,/que é chegada antiga/pra te acompanhar/Da canção primeira/livre e livradeira/que eu quero te dar/Compreende amiga/que eu não marque ainda/quando te encontrar/Que eu faça cumprida,/tanto quanto a vida/que foi só cantar/Dessa história antiga,/às vezes cantiga/pra eu poder contar/De ti companheira,/tu de corpo inteira/como eu pude amar/E perdoa amiga,/que eu não vá /correndo/hoje te abraçar/Nem cortar caminho,/nessa caminhada/que é pra te encontrar/Que eu guarde a esperança,/que vem vindo o dia/de poder voltar/Sem ter na chegada,/que morrer amada,/ou de amor matar”.


Se um dia teremos uma versão completa sobre a história desse grande artista da nossa canção e que possa desmentir ou confirmar as lendas que o cercam, é impossível prever. Mas o que parece certo após a audição de “Nas terras do benvirá” é o quanto o período ditatorial representou um desvio traumático na sua trajetória artistica e existencial, assim como de outros contemporâneos. Se realmente os militares não tocaram em Vandré, como o proprio afirmou em entrevistas, é inegável que o contexto de repressão e censura interrompeu de forma brutal uma trajetória publica que poderia ter legado uma contribuição ainda mais rica a tradição da canção de temática social.


Faixas
1 Na terra como no céu
(Geraldo Vandré)
2 Das terras de benvirá
(Geraldo Vandré)
3 Vem, vem
(Geraldo Vandré)
4 Canção primeira
(Geraldo Vandré)
5 De América
(Geraldo Vandré)
6 Sarabanda [A festa do Lobisomem]
(Tema livre de Geraldo Vandré)
7 Maria memória da minha canção
(Geraldo Vandré)
8 Bandeira branca
(Geraldo Vandré)

Para baixar: http://loronix.blogspot.com/2006/09/geraldo-vandre-das-terras-de-benvira.html

Obs.: Não conferi se esse link ainda está valendo e não tive tempo de procurar outro.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Convite Cultural

Galerinha, vai rolar nesse final de semana o Corredor Cultural de JF... Divirtam-se e vejam MATILDA no domingo,29/05, 16h, no Museu Ferroviário. É o esquenta pro show das Chicas 21h.


Aí vai o link com a programação:
http://www.pjf.mg.gov.br/funalfa/corredor_cultural/programa2011.pdf

Canção de protesto

Até Quando?
Gabriel O Pensador

Não adianta olhar pro céu, com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer e muita greve, você pode, você deve, pode crer
Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver
Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus sofreu não quer dizer que você tenha que sofrer
Até quando você vai ficar usando rédea?
Rindo da própria tragédia?
Até quando você vai ficar usando rédea? (Pobre, rico, ou classe média).
Até quando você vai levar cascudo mudo?
Muda, muda essa postura
Até quando você vai ficando mudo?
Muda que o medo é um modo de fazer censura.

Até quando você vai levando?
(Porrada! Porrada!)
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando?
(Porrada! Porrada!)
Até quando vai ser saco de pancada?

Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente, seu filho sem escola, seu velho tá sem dente
Cê tenta ser contente e não vê que é revoltante, você tá sem emprego e a sua filha tá gestante
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo, você que é inocente foi preso em flagrante!
É tudo flagrante! É tudo flagrante!

Refrão

A polícia matou o estudante, falou que era bandido, chamou de traficante.
A justiça prendeu o pé-rapado, soltou o deputado... e absolveu os PMs de vigário!

Refrão

A polícia só existe pra manter você na lei, lei do silêncio, lei do mais fraco: ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco.
A programação existe pra manter você na frente, na frente da TV, que é pra te entreter, que é pra você não ver que o programado é você.
Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar.
O cara me pede o diploma, não tenho diploma, não pude estudar.
E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar
Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá.
Consigo um emprego, começa o emprego, me mato de tanto ralar.
Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar.
Não peço arrego, mas onde que eu chego se eu fico no mesmo lugar?
Brinquedo que o filho me pede, não tenho dinheiro pra dar.
Escola, esmola!
Favela, cadeia!
Sem terra, enterra!
Sem renda, se renda!
Não! Não!!

Refrão

Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente.
A gente muda o mundo na mudança da mente.
E quando a mente muda a gente anda pra frente.
E quando a gente manda ninguém manda na gente.
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura.
Na mudança de postura a gente fica mais seguro, na mudança do presente a gente molda o futuro!
Até quando você vai ficar levando porrada, até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai ficar de saco de pancada?
Até quando você vai levando?

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Canções de Protesto

Trilogia Macabra: I - O Torturador

O torturador
difere dos outros
por uma patologia singular
— ser imprevisível
vai da infantilidade total
à frieza absoluta.

Como vivem recebendo
elogios e medalhas
como vivem subindo de posto,
pouco se importam pelos outros.
Obter confissões é uma arte
o que vale são os altos propósitos
o fim se justifica,
mesmo pelos meios mais impróprios.

Além de tudo o torturador,
agente impessoal que cumpre ordens superiores
no cumprimento de suas funções inferiores,
não está impedido de ser um pai extremoso
de ter certos rasgos
e em alguns momentos ser até generoso.

Além disso acredita que é macho, nacionalista,
que a tortura e a violência
são recursos necessários
para a preservação de certos valores
e se no fundo ele é um mercenário
sabe disfarçar bem isso
quando ladra.

Não se suja de sangue
não macera nem marca,
(a não ser em casos excepcionais)
o corpo de suas vítimas,
trabalha em ambientes assépticos
com distanciamento crítico
— não é um açougueiro, é um técnico —
sendo fácil racionalizar
que apenas põe a serviço da pátria
da civilização e da família
uma sofisticada tecnologia da dor
que teria de qualquer maneira
de ser utilizada contra alguém
para o bem de todos.


In: ALVERGA, Alex Polari de. Inventário de cicatrizes. Apres. Carlos Henrique de Escobar. 3.ed. São Paulo: Teatro Ruth Escobar; Rio de Janeiro: Comitê Brasileiro pela Anistia, s.d



sábado, 14 de maio de 2011

Martín Fierro, os gauchos e a payada (3)

Filme "Martín Fierro" de Leopoldo Torre Nilsson (diretor argentino)

Leopoldo Torre Nilsson (Buenos Aires, 5 de mayo de 1924 — Buenos Aires, 8 de septiembre de 1978) foi diretor e productor cinematográfico argentino.

A seguir, dois trechos no filme, exemplos de payada com versos do Martín Fierro, e presença do negro na nossa cultura, escassa e mínima. Aqui, o filho do negro que Martin Fierro matou anos antes por causa da zombaria dele perante a mãe (chamou ela de vaca no verso "Va...cayendo gente al baile". O negro lamenta na payada a morte do pai em desafio a facão e a humilhação da mãe.

http://www.youtube.com/watch?v=s9CC1bsGDAA&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=x-DcfvfOL9Y&NR=1

Martín Fierro, os gauchos e a payada (2)

A payada

A payada, no Paraguay, no Uruguai, sul do Brasil e Argentina, e a paya no Chile, é uma arte pertencente à cultura hispánica, que adquiriu un grande desenvolvimento no Cone Sul da América, no qual uma pessoa, o payador, improvisa um recitado em rima, cantado e acompañado de um violão (guitarra espanhola). Quando a payada é em dupla ou duetto se denomina contrapunto e toma a forma de um desafio cantado a dois violões (guitarras espanholas), no qual cada payador deve responder payando as perguntas do seu concorrente, para depois passar a perguntar do mesmo modo. Estas payadas em dupla costumam durar horas, às vezes dias, e terminam quando um dos cantores não responde imediatamente à pergunta do seu concorrente.

Em 23 de julho de 1884 se faz em Montevideu a famosa payada entre Juan Nava e Gabino Ezeiza. Em homenagem, na Argentina se estableceu como o Día do Payador.

Em 10 de novembro de 1834 nasce José Hernández, autor do Martín Fierro. Por ello se festeja esse dia na Argentina como Dia da Tradição. Tem vários concursos com cavalos, doma, payadas, etc.

A seguir, exemplos de payadas (em espanhol e português) e desafio de payada com rap em espanhol no Uruguai em 2010.

http://www.youtube.com/watch?v=b_HhJwWc9Os&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=CMDS3RVn4h0&feature=related

http://www.recantodasletras.com.br/audios/poesias/3670

Martín Fierro, os gauchos e a payada (1)

A seguir, publico alguns assuntos tratados respeito do Martín Fierro, os gauchos e a payada:

Os gauchos:

Etimología da palavra gaucho (Tradução Wikipedia em espanhol): Existem várias teorías sobre a origem del vocábulo, entre outras hipoteses, que pode ter sido derivado do quichua "huachu" (órfão, vagabundo) ou do árabe "chaucho" (um chicote utilizado no arado de animais). No árabe mudéxar existia a palavra "hawsh" para significar ao pastor e ao sujeito vagabundo, por outra parte tem se assinalado a provável influência de inmigrantes moriscos clandestinos na genese da gauchagem, tal qual o indicava Diego de Góngora nos seus informes capitulares para a coroa espanhola. Ainda hoje em Andalucia —especialmente na lingua cigana caló— se fala em "gacho" para significar ao camponês e, de modo figurativo, ao amante de uma mulher.

No século XVIII Concolorcorvo fala de "gauderios" quando fala de gauchos ou huasos, gauderio parece ser una espécie de "latinização" das palavras citadas, latinização associada ao termo latino —muito conhecido então, já que era usual na liturgia católica— gaudeus, que significa "gozo", e mesmo "libertinagem", ou seja a palavra "gaucho" como a palavra "huaso" —metatese uma da outra— parecem induvitávelmente plurietimológicas, e forjadas em um contexto temporal e territorial específico, o âmbito ganadeiro do Cone Sul, na região pampeana ou pampa argentina.

O primeiro uso documentado do termo data dos anos da indepêndencia argentina, declarada em 9 de julho de 1816. Porém estaria sendo utilizado desde 1770.

A origem da palavra gaucho, como a de tantas otras do Novo Mundo, tem dado lugar as mais variadas e não poucas vezes alucinantes teorias filológicas".

As primeras referências escritas a los gauchos se encuentran a comienzos del siglo XVII, utilizando de termos como "mancebos", "mancebos da tierra", "moços perdidos", "moços vagabundos", "crioulos da tierra", "changadores".

Em meados do século XVII começou a se utilizar a palabra "gauderio" para designar a esse grupo social. Pouco depois aparece a palavra "gaucho", encontrada pela primera vez escrita em um documento oficial da Banda Oriental (hoje Uruguai) em 1771, sendo já de uso generalizado para o fim do século XVIII.

A grande região do Cone Sul, apenas conhecida pelas autoridades espanholas e portuguesas também era un refugio para fugitivos das leis opressivas das autoridades coloniais e poscoloniais e escravos fugidos.

Nas últimas décadas do século XVIII e primeiras do século XIX a palavra gaucho se extendeu por toda a região, para designar aos trabalhadores livres que viviam do gado bovino selvagem (ou chimarrão, "ganado cimarrón") das pampas. Inicialmente o termo era usado pejorativamente, mas já na segunda e terceira década do século XIX, a palavra começou a perder sua conotação pejorativa, por conta da causa federalista iniciada por José Artigas, héroi uruguaio, liderando uma aliança de províncias integrada pelas províncias de Córdoba, Corrientes, Entre Ríos, Misiones (incluindo nessa época também às Missões Orientais), a Província Oriental e a de Santa Fe, os gauchos fizeram parte dos exércitos federais contra os unitários (elite letrada), que queriam o poder concentrado em Buenos Aires.

O amor em perspectiva: Dois discursos masculinos no tango de Goyeneche e dois discursos femininos na dor de cotovelo de Maysa (2)

A seguir, as músicas que correspondem a esse assunto:

Ouça(1957) Letra: Maysa. Música: Maysa.

Ouça, vá viver
Sua vida com outro bem
Hoje eu já cansei
De pra você não ser ninguém

O passado não foi o bastante
Pra lhe convencer
Que o futuro seria bem grande
Só eu e você

Quando a lembrança
Com você for morar
E bem baixinho
De saudade você chorar

Vai lembrar que um dia existiu
Um alguém que só carinho pediu
E você fez questão de não dar
Fez questão de negar

Quando a lembrança
Com você for morar
E bem baixinho
De saudade você chorar

Vai lembrar que um dia existiu
Um alguém que só carinho pediu
E você fez questão de não dar
Fez questão de negar

Para escutar OUÇA: http://www.youtube.com/watch?v=zdI-nB18QIw

Meu Mundo Caiu (1958) Letra: Maysa. Música: Maysa.

Meu mundo caiu
E me fez ficar assim
Você conseguiu
E agora diz que tem pena de mim

Não sei se me explico bem
Eu nada pedi
Nem a você nem a ninguém
Não fui eu que caí

Sei que você me entendeu
Sei também que não vai se importar
Se meu mundo caiu
Eu que aprenda a levantar

Para escutar MEU MUNDO CAIU (video televisão japonesa):
http://www.youtube.com/watch?v=BgkEb_EHaP0&feature=related

E também MEU MUNDO CAIU (melhor som):
http://www.youtube.com/watch?v=f_2MtwlnLg0&feature=related

O amor em perspectiva: Dois discursos masculinos no tango de Goyeneche e dois discursos femininos na dor de cotovelo de Maysa (1)

A seguir, publico o falado na oficina no dia 13/05/2011 sobre este assunto.

Tango Uno (1950) por Roberto Goyeneche (1926-1994)

Uno (1950) Letra: Enrique Santos Discépolo. Música: Mariano Mores.

Uno busca lleno de esperanzas
el camino que los sueños
prometieron a sus ansias.
Sabe que la lucha es cruel
y es mucha pero lucha y se desangra
por la fe que lo empecina...
Uno va arrastrándose entre espinas
y en su afán de dar su amor,
sufre y se destroza hasta entender
que uno se ha quedao sin corazón...
Precio de castigo que uno entrega
por un beso que no llega
a un amor que lo engañó...
¡Vacío ya de amar y de llorar
tanta traición!
Si yo tuviera el corazón...
(El corazón que di...)
Si yo pudiera como ayer
querer sin presentir...
Es posible que a tus ojos
que me gritan tu cariño
los cerrara con mis besos...
Sin pensar que eran como esos
otros ojos, los perversos,
los que hundieron mi vivir.
Si yo tuviera el corazón...
(El mismo que perdí...)
Si olvidara a la que ayer
lo destrozó y... pudiera amarte...
me abrazaría a tu ilusión
para llorar tu amor...
Pero, Dios te trajo a mi destino
sin pensar que ya es muy tarde
y no sabré cómo quererte...
Déjame que llore
como aquel sufre en vida
la tortura de llorar su propia muerte...
Pura como sos, habrías salvado
mi esperanza con tu amor...
Uno está tan solo en su dolor...
Uno está tan ciego en su penar....
Pero un frío cruel
que es peor que el odio
-punto muerto de las almas,
tumba horrenda de mi amor-
maldijo para siempre
y me robó... toda ilusión...

Para escutar UNO: http://www.youtube.com/watch?v=Gf2BmOwMFlg

Tango Naranjo en Flor (1944)por Roberto Goyeneche (1926-1994)

Era más blanda que el agua,
que el agua blanda.
Era más fresca que el río,
naranjo en flor.
Y en esa calle de estío,
calle perdida,
dejó un pedazo de vida
y se marchó.

Primero hay que saber sufrir,
después amar, después partir
y, al fin, andar sin pensamientos.
Perfume de naranjo en flor,
promesas vanas de un amor
que se escaparon con el viento.

Después, ¿qué importa del después?
Toda mi vida es el ayer
que me detiene en el pasado.

¡Eterna y vieja juventud,
que me ha dejado acobardado
como un pájaro sin luz!

¿Qué le habrán hecho mis manos?
¿Qué le habrán hecho
para dejarme en el pecho
tanto dolor?
Dolor de vieja arboleda,
canción de esquina
con un pedazo de vida,
naranjo en flor.

Para escutar NARANJO EN FLOR: http://www.youtube.com/watch?v=HUs8HNeTlD8

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Chamada de publicação - Darandina Revisteletrônica

Ementa:

Apontamentos sobre a canção brasileira na interface literatura/música


Tem sido cada vez maior o interesse em ler e pesquisar a canção brasileira de
modo interdisciplinar e interdepartamental. Tendo em vista a proliferação de debates
atuais sobre o tema em questão sugerimos discutir e problematizar, em Letras, a
concepção urbana de canção, na clave de reflexão da crítica cultural contemporânea. O
objetivo é pensar a palavra cantada a partir do final dos anos 60 na interface literatura/
música, nos seguintes aspectos: memória, voz, corpo, performance, identidade, nação,
mercado e suportes midiáticos.

Os trabalhos para a 7ª edição serão recebidos até 13 de maio de 2011.

Solicitamos aos nossos colaboradores que observem atentamente as normas técnicas para publicação, disponíveis no site, pois elas sofreram algumas alterações. Também solicitamos aos autores que, ao enviarem seus trabalhos, escrevam no campo assunto” do e-mail o título da ementa desta edição - “Apontamentos sobre a canção brasileira na interface literatura/música”.

Obs.: Os graduandos e os graduados precisam do parecer de um professor do PPG - Estudos Literários.

Comissão editorial da Darandina Revisteletrônica

http://www.ufjf.br/darandina/

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Marcelo Camelo




"Marcelo de Souza Camelo (Rio de Janeiro, 4 de fevereiro de 1978) é um compositor, cantor, guitarrista, violinista e poeta brasileiro. Foi vocalista e guitarrista da banda de rock alternativo Los Hermanos. Atualmente, o cantor segue em carreira solo."

(Fonte: Wikipedia)









DESPEDIDA
Eu não sou daqui também marinheiro
Mas eu venho de longe
E ainda do lado de trás da terra além da missão comprida
Vim só dar despedida

Filho de sol poente
Quando teima em passear
desce de sal nos olhos doente da falta de voltar

Filho de sol poente
Quando teima em passear
desce de sal nos olhos doente da falta que sente do mar
Vim só dar despedida


SAMBA A DOIS
Quem se atreve a me dizer do que é feito o samba?
Quem se atreve a me dizer?

Não, eu não sambo mais em vão
O meu samba tem cordão
O meu bloco tem sem ter e ainda assim
Sambo bem a dois por mim
Bambo e só, mas sambo, sim
Sambo por gostar de alguém, gostar de

Me lavra a alma, me leva embora
Deixa haver samba no peito de quem...(chora)

...se atreve a me dizer
Do que é feito o samba ?

Quem me ensinou a te dizer
"Vem que passa o teu sofrer"
Foi mais um que deu as mãos entre nós dois
Eu entendo o seu depois
Não me entenda aqui por mal
Mas pro samba foi vital falar em...

Me laça a alma, me leva agora
Já que um bom samba não tem lugar nem...(hora)

...se atreva a me dizer
Do que é feito o samba
Nem se atreva a me dizer


TEM MAIS SAMBA - Chico Buarque
Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer

Vem que passa
Teu sofrer
Se todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver


terça-feira, 3 de maio de 2011

Citando Chico

Aproveito as recentes citações do Chico Buarque postadas pela Wal no blog para retomar outro texto dele, que comentei em um dos primeiros encontros da oficina. "Nem toda loucura é genial, nem toda lucidez é velha" foi publicado no jornal Última Hora, em 09/12/68. O texto situa um momento de embates e contradições na MPB propício para modalizar questões da cultura que costumam levantar polêmicas e demarcações de posição. Podemos pensar isso em função do que estudamos agora: rap, funk e literatura da periferia, não acham?
Estava mal chegando a São Paulo, quando um repórter me provocou: "Mas como, Chico, mais um samba? Você não acha que isso já está superado?" Não tive tempo de me defender ou de atacar os outros, coisa que anda muito em voga. Já era hora de enfrentar o dragão, como diz o Tom. Enfrentar as luzes, os cartazes, e a platéia, onde distingui um caro colega regendo um coro pra frente, de franca oposição. Fiquei um pouco desconcertado pela atitude do meu amigo, um homem sabidamente isento de preconceitos. Foi-se o tempo em que ele me censurava amargamente, numa roda revolucionária, pelo meu desinteresse em participar de uma passeata cívica contra a guitarra elétrica. Nunca tive nada contra esse instrumento, como nada tenho contra o tamborim. O importante é ter Mutantes e Martinho da Vila no mesmo palco.

Mas, como eu ia dizendo, estava voltando da Europa e de sua música estereotipada, onde samba, toada etc. são ritmos virgens para seus melhores músicos, indecifráveis para seus cérebros eletrônicos. "Só tenho uma opção, confessou-me um italiano - sangue novo ou a antimúsica. Veja, os Beatles, foram à Índia..." Donde se conclui como precipitada a opinião, entre nós, de que estaria morto o nosso ritmo, o lirismo e a malícia, a malemolência. É certo que se deve romper com as estruturas. Mas a música brasileira, ao contrário de outras artes, já traz dentro de si os elementos de renovação. Não se trata de defender a tradição, família ou propriedade de ninguém. Mas foi com o samba que João Gilberto rompeu as estruturas da nossa canção. E se o rompimento não foi universal, culpa é do brasileiro, que não tem vocação pra exportar coisa alguma. Quanto a festival, acho justo que estejam todos ansiosos por um primeiro prêmio. Mas não é bom usar de qualquer recurso, nem se deve correr com estrondo atrás do sucesso, senão ele se assusta e foge logo. E não precisa dar muito tempo para se perceber "que nem toda loucura é genial, como nem toda lucidez é velha."


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Para refletir:
As expressões culturais produzidas nas periferias pobres das metrópoles brasileiras contribuem para (re)significar o imaginário nacional?

A periferia entra em cena

"Quando voçê vê um fenômeno como o rap, isso é de certa forma uma negação da canção tal como a conhecemos". (Chico Buarque)

"Talvez tenha razão quem disse que a canção, como a conhecemos, é um fenômeno próprio do século passado, tal é a quantidade de releituras, de compilações, de relançamentos, de gente cantando clássicos - e isso no mundo inteiro". (Chico Buarque)

"No Brasil, isso é nítido. Noel Rosa formatou essa música nos anos 30. Ela vigora até os anos 50 e aí vem a bossa nova, que remodela tudo - e pronto". (Chico Buarque)

"A minha geração, que fez aquelas canções todas, com o tempo só aprimorou a qualidade da sua música. Mas o interesse hoje por isso parece pequeno. Por melhor que seja, por mais aperfeiçoada que seja, parece que não acrescenta grande coisa ao que já foi feito". (Chico Buarque)

"Acho esse fenômeno do rap muito interessante. Não só o rap em si, mas o significado da periferia se manifestando. Tem uma novidade aí". (Chico Buarque)

"Isso por toda parte, mas no Brasil, que eu conheço melhor, mesmo as velhas canções de reivindicação social, as marchinhas de Carnaval meio ingênuas, aquela história de 'lata d'água na cabeça' etc. e tal, normalmente isso era feito por gente de classe média. O pessoal da periferia se manifestava quase sempre pelas escolas de samba, mas não havia essa temática social muito acentuada, essa quase violência nas letras e na forma que a gente vê o rap. Esse pessoal junta uma multidão. Tem algo aí". (Chico Buarque)
  • Os fragmentos acima foram retirados de entrevistas concedidas por Chico Buarque. Disponíveis em <http://www.chicobuarque.com.br/texto/menuentrevistas.htm>, acesso em 27/04/2011. Disponíveis ainda em "Cinema-Canção", ensaio de Francisco Bosco, publicado em NESTROVSKI, Arthur. (Org). Lendo Música - 10 ensaios sobre 10 canções. São Paulo: Publifolha, 2007.

"Muita gente tem ojeriza com coisas que acontecem no Brasil, como o axé music, a música do carnaval da Bahia ou o funk carioca. São elitistas com medo e vergonha de de misturar com o que vem 'de baixo'." (Caetano Veloso)
  • Fragmento retirado de Bravo, junho de 2005, p.74.

"O funk carioca é nossa maior revolução cultural dos últimos tempos. O pancadão é uma evolução dionísica da contestação". (Lobão)
  • Fragmento retirado de Bravo, junho de 2005, p.76.

"Assim como o baião de Luiz Gonzaga, o funk descreve como crônica todo um universo próprio, com suas vestimentas, danças e gírias próprias. O Funk soube dar o pulo do gato, transformando o Miami bass numa batida única. Quem na história da música eletrônica usa samples de berimbau e de atabaque daquela maneira? do software aos soundsystems dos bailes, passando pela maneira roots de programar a bateria eletrõnica, tudo se deu como na história do dub jamaicano. o gosto estético dos que produzem funk é ditado por eles mesmos, calcado em sua verdade". (Lucas Santanna)
  • Fragmento retirado de Bravo, junho de 2005, p.77.

"A capoeira não vem mais, agora reagimos com a palavra (...)" (Ferréz. 2005, p.9)

"Cala a boca, negro e pobre aqui não tem vez! Cala a Boca!
Cala a boca uma porra, agora a gente fala, agora a gente canta, e na moral agora a gente escreve." (Ferréz. 2005, p. 9)

"Não somos o retrato, pelo contrário, mudamos o foco e tiramos nós mesmos a nossa foto." (Ferréz.2005, p. 9)

"A Literatura marginal, sempre é bom frisar, é uma literatura feita por minorias, sejam elas raciais ou socioeconômicas. Literatura feita à margem dos núcleos centrais do saber e da grande cultura nacional, isto é, de grande poder aquisitivo. Mas alguns dizem que sua principal característica é a linguagem, é o jeito como falamos, como contamos a história (...)". (Ferréz.2005, p. 12)
  • Fragmentos retirados de: FERRÉZ. (Org.). Literatura marginal: talentos da escrita periférica. Rio de janeiro: Agir, 2005.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Cartola, no moinho do mundo

"Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita em sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo.


Eu fiz o ninho. Te ensinei o bom caminho. Mas quando a mulher não tem brio, é malhar em ferro frio.



Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o velho samba de Cartola; Na Floresta (música de Sílvio Caldas).


Esse Cartola! Desta vez, está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei Sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: “Tenho um novo amor”, é como se desse a senha pela renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.

A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem me observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.

Em Tempos Idos, o divino Cartola, como o qualificou Lúcio Rangel, faz o histórico poético da evolução do samba, que se processou, aliás, com a sua participação eficiente:


Com a mesma roupagem que saiu daqui exibiu-se para a Duquesa de Kent no Itamaraty.



Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar o seu samba Quem Me Vê Sorrir (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockowski não lhe fez nenhum favor: reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes de nossa população. Coisa que contagiou a ilustre Duquesa.

* * *
Mas então eu fiquei parado, ouvindo a filosofia céptica do Mestre Cartola, na voz de Sílvio Caldas. Já não me lembrava o compromisso que tinha de cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não. Cartola devia estar muito ferido para dizer coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranqüilo, Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. “O mundo é um moinho...” O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar em lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação."






Pessoal, acima, a crônica do Drummond sobre o Cartola que ficamos de postar aqui no blog. Abaixo, a canção "O mundo é um moinho", que o Drummond cita na crônica, mas que, infelizmente, não ouvimos hoje. Para mim, a mais bonita dentre as cinco do Cartola que incluimos na nossa apresentação. Abraços a todos!



video


Ainda é cedo, amor


Mal começaste a conhecer a vida


Já anuncias a hora de partida


Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida


Embora eu saiba que estás resolvida


Em cada esquina cai um pouco a tua vida


Em pouco tempo não serás mais o que és


Ouça-me bem, amor


Preste atenção, o mundo é um moinho


Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.


Vai reduzir as ilusões a pó


Preste atenção, querida


De cada amor tu herdarás só o cinismo


Quando notares estás à beira do abismo


Abismo que cavaste com os teus pés

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Para quem não souber quem foi Mercedes Sosa e José Hernández

Queridos amigos,

Aqui deixo esclarecido quem foram as pessoas das quais eu falei nas minhas outras postagens:

José Hernández (1834 - 1886) foi um poeta, político e jornalista argentino, conhecido, principalmente, pelo livro Martín Fierro, considerado "o livro pátrio" da Argentina.

Mercedes Sosa (1935 — 2009) foi uma cantora argentina de grande apelo popular na América Latina. Com raízes na música folclórica argentina, ela se tornou uma das expoentes do movimento conhecido como Nueva Canción. Apelidada de La Negra pelos fãs devido à ascendência ameríndia (no exterior acreditava-se erroneamente que era devido a seus longos cabelos negros), ficou conhecida como a voz dos "sem voz".

Na minha postagem anterior ficou repetido "que cultura" duas vezes. Desconsiderar. Obrigado.

Minhas propostas para apresentar em sala de aula.

Queridos amigos e Alexandre,

Estou com vontade de escutar varias coisas. Podem escolher, que eu levo para a aula quando for o momento. A minha praia é os estudos comparativos:

1) No momento da "dor-de-cotovelo" e "a herança beletrista" estava pensando em escutar com vocês dois tangos: Uno, de Mariano Mores, cantado por Roberto Goyeneche e Naranjo en Flor, de Homero Expósito, cantado também por Roberto Goyeneche, e duas músicas "dor-de-cotovelo" de Maysa: Ouça e Meu mundo caiu, tratando do discurso amoroso da mulher e do discurso amoroso do homem e como o português e o espanhol tratam do amor desde o ponto de vista da lingua e da bagagem cultural que cultural que acarreta cada uma.

2) Quero escutar cantores em espanhol que cantam músicas em português e cantores em português que cantam músicas no espanhol:

Proponho escutar Mercedes Sosa, cantando um poema de Nicolás Guillén, cubano, em homenagem a Cândido Portinari,Un son para Portinari, musicalizado por Horácio Salinas, chileno, do grupo Inti Illimani. Ou ainda, gostaria de ver o video do Inti Illimani, para vocês verem os instrumentos, uso da sanfona, etc.

Por outra parte, gostaria de escutar com vocês Volver a los 17, de Violeta Parra, chilena, cantado por Mercedes Sosa, com Milton Nascimento, Chico Buarque, Gal Costa e Caetano Veloso. O vídeo está traduzido para o português.

Sei que não há tempo, mas gostaria de fazer escutar trechos ou os começos de outras músicas para ver nossos ritmos, um vallenato colombiano, um huayno boliviano-argentino, uma cueca chilena, uma zamba argentina, uma chacarera argentina, um carnavalito argentino, etc.

Não quero teorizar sobre a música, aproveitemos a sexta-feira e ouçamos música para curtir, para amar, para relaxar, para viver. Gastamos muito tempo falando em sala de aula, que nossa oficina seja para escutar e aprender música, para amar a música, para sentir ela com o coração. Façamos uma disciplina para a vida! Quero compartilhar estas coisas que sinto com vocês. Obrigado.

Morte e Vida Severina e Martín Fierro em contraste.

Amigos,

Aqui Severino se apresenta e também Martín se apresenta. Os dois começam o texto desde jeito para contar sua história. As problemáticas parece que se repetem.
O espanhol em está escrito o Martín Fierro é um espanhol rural do século XVIII e XIX, que ficaria extenso traduzir aqui. Prefiro, se houver tempo, fazer uma leitura compartilhada com vocês e ir traduzindo na seqüência, no decorrer da leitura oral, porque o canto Martín Fierro, embora esteja escrito, é tão oral como o canto do Severino e o canto nordestino.
A analise é recortada e énfatica nestes textos, mas também vejo elos e assuntos repetidos com Elomar e Patativa do Assaré, já escutados em sala de aula.

O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR
QUEM É E A QUE VAI
— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte Severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.


I
1
Aquí me pongo a cantar
al compás de la vigüela,
que el hombre que lo desvela
una pena estrordinaria,
como la ave solitaria
con el cantar se consuela.
2
Pido a los santos del cielo
que ayuden mi pensamiento.
Les pido, en este momento
que voy a cantar mi historia,
me refresquen la memoria
y aclaren mi entendimiento.
3
Vengan santos milagrosos,
vengan todos en mi ayuda,
que la lengua se me añuda
y se me turba la vista.
Pido a mi Dios que me asista
en una ocasión tan ruda.
4
Yo he visto muchos cantores,
con famas bien otenidas
y que después de alquiridas
no las quieren sustentar.
Parece que sin largar
se cansaron en partidas.
5
Mas ande otro criollo pasa
Martín Fierro ha de pasar.
Nada lo hace recular
ni los fantasmas lo espantan
y dende que todos cantan
yo también quiero cantar.
6
Cantando me he de morir,
cantando me han de enterrar,
y cantando he de llegar
al pie del Eterno Padre.
Dende el vientre de mi madre
vine a este mundo a cantar.
7
Que no se trabe mi lengua
ni me falte la palabra;
el cantar mi gloria labra
y, poniéndome a cantar,
cantando me han de encontrar
aunque la tierra se abra.
8
Me siento en el plan de un bajo
a cantar un argumento;
como si soplara el viento
hago tiritar los pastos.
Con oros, copas y bastos
juega allí mi pensamiento.
9
Yo no soy cantor letrao,
mas si me pongo a cantar
no tengo cuándo acabar
y me envejezco cantando.
Las coplas me van brotando,
como agua de manantial.
10
Con la guitarra en la mano
ni las moscas se me arriman.
Naides me pone el pie encima
y, cuando el pecho se entona,
hago gemir a la prima
y llorar a la bordona.
11
Yo soy toro en mi rodeo
y torazo en rodeo ajeno.
Siempre me tuve por güeno
y, si me quieren probar,
salgan otros a cantar
y veremos quien es menos.
12
No me hago al lao de la güeya
aunque vengan degollando;
con los blandos yo soy blando
y soy duro con los duros.
Y ninguno en un apuro
me ha visto andar tutubiando.
13
En el peligro ¡qué Cristos!
el corazón se me enancha,
pues toda la tierra es cancha,
y de esto naides se asombre:
el que se tiene por hombre
ande quiera hace pata ancha.
14
Soy gaucho, y entiendaló
como mi lengua lo esplica:
para mí la tierra es chica
y pudiera ser mayor;
ni la víbora me pica
ni quema mi frente el sol.
15
Nací como nace el peje
en el fondo de la mar;
naides me puede quitar
aquéllo que Dios me dio:
lo que al mundo truje yo
del mundo lo he de llevar.
16
Mi gloria es vivir tan libre
como el pájaro del cielo;
no hago nido en este suelo
ande hay tanto que sufrir,
y naides me ha de seguir
cuando yo remuento el vuelo.
17
Yo no tengo en el amor
quien me venga con querellas.
Como esas aves tan bellas,
que saltan de rama en rama,
yo hago en el trébol mi cama
y me cubren las estrellas.
18
Y sepan cuantos escuchan
de mis penas el relato,
que nunca peleo ni mato
sino por necesidá
y que a tanta alversidá
sólo me arrojó el mal trato.
19
Y atiendan la relación
que hace un gaucho perseguido,
que padre y marido ha sido
empeñoso y diligente,
y sin embargo la gente
lo tiene por un bandido.


Espero que tenham gostado da leitura. Muito obrigado pela atenção.

Martin Fierro em contraste com Morte e Vida Severina, a Pampa e a Sesmaria, dos discursos análogos

Amigos meus,

não pretendo teorizar muito sobre isto de comparar os dois textos, foi dificil pegar um trecho representativo de cada obra, já que as analises que podem se fazer são infinitas. Decidi fazer um recorte, não sei se bem feito, da introdução destes dois textos, a apresentação de Martin Fierro e de Severino, chamando a atenção de vocês para conceitos que além das fronteiras são comuns aos seres humanos, o amor é algo compartilhado por todos, o sofrimento, a imensidão da terra: a Pampa (terra sem árvores, em linguagem indígena Pampa) e o Sertão Nordestino.

Martín Fierro, obra de José Hernández, é um poema em sextilha que as vezes usa redondilha, composta de dois livros: o primeiro -Martín Fierro- foi escrito em 1872 e o segundo -La Vuelta de Martín Fierro- dado o sucesso de vendas do primeiro, en 1879. Relata a vida de um gaucho (não gaúcho) que inicialmente era bucólico e trabalhador, para prestar serviço militar obrigatório (leva forzada)foi para a fronteira para defendé-la dos indios.

Aí as condições de vida eram muito duras, pois os índios atacavam as populações em forma de "malón", roubavam, matavam e levavam cativas às mulheres. Alí os soldados ganhavam pouco dinheiro, sofriam os abusos dos chefes militares, que obrigavam eles a trabalhar nas terras e para poder comer saiam a caçar avestruzes (ñandúes ou "ñanduzes") e vendiam as penas.

Martín Fierro deserta do exército e quando volta para sua casa seu rancho estava destruido e sua mulher e filhos dispersos, pelo qual ele vira um "gaucho matrero" (gaucho violento). Borges tomará estas figuras da literatura gauchesca posteriormente.

Martín Fierro se junta a um outro gaucho, chamado Cruz, depois de uma briga com a polícia por causa de ele ter matado um homem numa "pulpería" (lugar onde se tomava alcool e paravam as carruagens para se abastecer) e começam várias aventuras. Cruz tinha perdido seu filho e sua mulher tinha lhe traido com o chefe de uma milicia. Passamos ao livro seguinte.

Já na Vuelta de Martín Fierro, depois de muitas andanças nas "tolderías" (lugar onde moravam os indios) morre Cruz, Martín Fierro fica sozinho e triste mas encontra seus filhos, que narram ter estado com um tutor desonesto e aproveitador, o Viejo Vizcacha, quem costumava dar conselhos oportunistas. Também encontra com o filho de Cruz, Picardía, quem conta seus causos.

No final, ele encontra também o irmão do homem que matou e canta com ele também uma "payada" (forma como se chama a este tipo de poema que se canta a dois violões como se eles estivessem em duelo) e reflexionam, em um brilhante contrapunto em que se misturam poesia e filosofía, sobre o céu, a terra, o mar, o amor, a lei, a unidade, a quantidade, o tempo. Martin Fierro se despede dando sabios conselhos aos seus filhos e ao de Cruz: que sejam honradois, unidos, que trabalhem e que não percam o tempo. Admitindo que ele mesmo não foi um bom exemplo, encoraja eles a que

El hombre no mate al hombre
Ni pelee por fantasía.
Tiene en la desgracia mía
Un espejo en que mirarse.


Na próxima postagem, para este texto não ficar longo e pesado de ler, coloco a apresentação de Severino e de Martín Fierro em contraste. Obrigado pela atenção.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Que o Deus venha - Clarice Lispector

"Precisando mais do que a força humana. Sou forte mas também destrutiva. O Deus tem que vir a mim já que não tenho ido a Ele. Que o Deus venha: por favor. Mesmo que eu não mereça. Venha. Ou talvez os que menos merecem mais precisem. Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieta é porque preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Mas sei que terei paz antes da morte e que experimentarei um dia o delicado da vida. Perceberei - assim como se come e se vive o gosto da comida. Minha voz cai no abismo de teu silêncio. Tu me lês em silêncio. Mas nesse ilimitado campo mudo desdobro as asas, livre para viver. então aceito o pior e entro no âmago da morte e para isto estou viva. O âmago sensível. E vibra-me esse it."
(In: LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Artenova, 1973)

Que o Deus Venha
Composição: Cazuza/ Roberto Frejat/ Clarice Lispector

Sou inquieto, áspero
E desesperançado
Embora amor dentro de mim eu tenha
Só que eu não sei usar amor
Às vezes arranha
Feito farpa

Se tanto amor dentro de mim
Eu tenho, mas no entanto
Continuo inquieto
É que eu preciso que o Deus venha
Antes que seja tarde demais

Corro perigo
Como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É o inesperado

Mas eu sei
Que vou ter paz antes da morte
Que vou experimentar um dia
O delicado da vida
Vou aprender
Como se come e vive
O gosto da comida

http://www.youtube.com/watch?v=0QirXy9Z3s8

segunda-feira, 4 de abril de 2011

"Muito romântico" por Caetano Veloso

Caros colegas,
Estive procurando um pouco de informações sobre a música “Muito romântico” que ouvimos na última aula e achei um comentário bem interessante, referente à versão cantada por Caetano Veloso.  Deem uma olhada e esclareçam minhas dúvidas, por favor. (rs)


A Composição Passional de Caetano Veloso na Canção Muito Romântico
Acreditando ser a abordagem mais apropriada para o assunto proposto, considerando ainda ser o nome da disciplina Prosódia e não Análise, será enfatizada a poesia sobre a música; as direções musicais aqui abordadas serão estritamente melódicas e em função da poesia. Para tanto, alguns conceitos são representativos, mesmo se não citados durante o desenvolvimento da análise. Entre eles figuram os dêiticos,  que indicam a situação enunciativa em que se encontra o compositor ou intérprete da canção, e os tonemas; inflexões melódicas que podem ser ascendentes, descendentes ou estáticas, em suspensão.

Poesia
Muito Romântico (Caetano Veloso)
Gravada em 1978 no disco Muito
Não tenho nada com isso, nem vem falar              A
Eu não consigo entender sua lógica
Minha palavra cantada pode espantar
E a seus ouvidos parecer exótica                       
Mas acontece que eu não posso me deixar           B
Levar por um papo que já não deu, não deu
Acho que nada restou para guardar ou lembrar
Do muito ou pouco que houve entre você e eu      
Nenhuma força virá me fazer calar                      A
Faço no tempo soar minha sílaba
Canto somente o que pede pra se cantar
Sou o que soa eu não douro pílula                     
Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior   B
Com todo mundo podendo brilhar num cântico
Canto somente o que não pode mais se calar
Noutras palavras sou muito romântico 
               
Analisando Verso por Verso
Nesse tópico será analisada a poesia, verso por verso, sempre acompanhada do desenvolvimento melódico como reforço de intenção do compositor. A melodia, criada em forma de sentença, é composta por três notas descendentes com duração de tercinas de colcheia, durante quase toda a canção. Além disso o intérprete usa o legatto como recurso de expressão. Somadas, essas características remetem a conclusão de que a poesia é sustentada por uma continuidade melódica.
Não tenho nada com isso nem vem falar – Eu não consigo entender sua lógica, usando advérbios de negação (não, nem) no começo dos versos,  o compositor deixa transparecer incompreensão, ou ainda uma atitude inconformada, de revolta.

Minha palavra cantada pode espantar – e ao seus ouvidos parecer exótica. Aqui o compositor assume sua revolta introduzida no verso anterior, demonstrando ciência de sua brutalidade e alteração, como dizendo “eu sei que posso te assustar, e isso vai soar estranho”. A melodia é ainda idêntica ao verso anterior.

Mas acontece que eu não posso me deixar – Levar por um papo que já não deu, não deu. O autor afirma que não pode se abalar por uma conversa muito mal assimilada, de difícil aceitação, cujo conteúdo não é revelado. A melodia ressalta as palavras não deu, não deu, prolongando-as e atingindo o ápice do âmbito melódico, via tonemas ascendentes, propondo a prorrogação da tensão emotiva. Exemplo de comunhão perfeita entre texto e melodia.

Acho que nada restou para guardar ou lembrar – Do muito ou pouco que houve entre você e eu. Com esse verso a relação que unia o protagonista ao destinatário da canção (provavelmente uma mulher, com certeza uma pessoa que foi muito querida, em algum tempo) é praticamente anulada e desmerecida. Na gravação de Caetano (no disco Muito) os pronomes você e eu são repetidos uma vez, sublinhando o que antes fora uma relação amorosa. Esse verso também finaliza o primeiro chorus da música.
Nenhuma força virá me fazer calar – Faço no tempo soar minha sílaba Novamente ao iniciar um chorus é reforçada a idéia de revolta acrescida da necessidade de expressão, talvez como catarse. O segundo verso transmite uma idéia de poesia, remetendo a uma alma poética, sensível, musical.

Canto somente o que pede para se cantar Quem pede aqui é possivelmente o coração de seu compositor, seu eu-lírico, sua alma de poeta. Converge com o verso anterior no sentido da necessidade de expressão e da busca pela verdade, como um cientista solucionando desafios e buscando assim aquietar a alma.

Sou o que soa eu não douro pílula Reforça a idéia de imposição, vigor e sinceridade do orador, que não tem meias palavras, é conciso e sem rodeios, doa a quem doer.

Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior – Com todo mundo podendo brilhar, num cântico Aqui um dos versos chave para a interpretação do protagonista; a idealização de comunhão, sem dor, só a felicidade. Mas para isso é necessário externar todo o sentimento, desabafar e livrar-se desse estado de ânimo. É a prova de que a melancolia não é um objetivo, uma certeza, mas uma transição e que o fato de ainda não ter transcendido atordoa, aflige.

Canto somente o que não pode mais se calar Esse verso escancara a tendência ao desabafo, o extravasar de um sentimento que precisa ser compartilhado em busca de conforto e compaixão.

Noutras palavras sou muito romântico  O último verso da música explica o estado de espírito do protagonista, justifica suas colocações evidenciando sua passionalidade, sua herança latina, que tende ao sofrimento e a exacerbação dos assuntos passionais.

Entendendo as Tensões Passionais
As nuances entre continuidade e segmentação da melodia são consideradas tensões cruciais na descrição da gestualidade oral contida em uma canção.  Nessa canção, ao investir na continuidade melódica, (como visto no tópico anterior) no prolongamento das vogais, o autor está fundindo todo o percurso da canção com o ser e com os estados da paixão. Esse comportamento melódico será classificado como passionalização.
  
Conclusão: Canção de Amor?
O autor não pronuncia em nenhum momento a palavra amor, nem nome de mulher e não diz explicitamente que está sofrendo.  Apesar disso, a canção é passional; aproveita a linearidade linguística para reconstruir a experiência presenciada, relatada nessa canção de forma direta (aqui e agora, não num tempo passado). A intensidade emotiva é dosada com inclinações da linha melódica. O ouvinte capta a experiência vivida e se espelha nos acontecimentos, via melodia, sem a necessidade de clichês e lugares-comum. Assim se instaura uma espécie de acordo tácito entre a fonte (compositor) e o receptor (ouvinte). 
         
Caetano raramente demonstra em sua poesia a tensão passional; apenas deixa transparecer um núcleo tensivo por trás dos ícones, que são sugestivos e imprevisíveis. Na análise passo-a-passo da letra esse núcleo tensivo fica evidente desde o primeiro verso, com negativas e incisão.
É essa determinação tensiva da melodia, fundamentada na repetição das tercinas descendentes, somada a vestígios narrativos disseminados ao longo do texto (você e eu, no final do primeiro chorus, por exemplo) que garante que as mensagens passionais estão sendo transmitidas.


 Meu comentário sobre o texto é o seguinte: Eu achei a interpretação muito bem feita, mas ela me parece muito mais preocupada no poema da música do que necessária nas características musicais dela. Gostei muito sobre o dito referente a catarse que o eu-lírico passa em um dos versos do poema e a referência sobre as tensões passionais da temática poética. Tive algumas dúvidas quanto a alguns termos que acredito serem técnicos da música. Se puderem me ajudar, gostaria de saber o que são tonemas,  legatto  e tercinas de colcheia.
Além dessas dúvidas a nível vocabular me veio uma  outra questão: Qual a melhor forma de trabalhar a música na literatura sem acabar levando em conta demais  o lado poético da canção (como pareceu-me a análise acima) ?