quinta-feira, 28 de abril de 2011

Para refletir:
As expressões culturais produzidas nas periferias pobres das metrópoles brasileiras contribuem para (re)significar o imaginário nacional?

A periferia entra em cena

"Quando voçê vê um fenômeno como o rap, isso é de certa forma uma negação da canção tal como a conhecemos". (Chico Buarque)

"Talvez tenha razão quem disse que a canção, como a conhecemos, é um fenômeno próprio do século passado, tal é a quantidade de releituras, de compilações, de relançamentos, de gente cantando clássicos - e isso no mundo inteiro". (Chico Buarque)

"No Brasil, isso é nítido. Noel Rosa formatou essa música nos anos 30. Ela vigora até os anos 50 e aí vem a bossa nova, que remodela tudo - e pronto". (Chico Buarque)

"A minha geração, que fez aquelas canções todas, com o tempo só aprimorou a qualidade da sua música. Mas o interesse hoje por isso parece pequeno. Por melhor que seja, por mais aperfeiçoada que seja, parece que não acrescenta grande coisa ao que já foi feito". (Chico Buarque)

"Acho esse fenômeno do rap muito interessante. Não só o rap em si, mas o significado da periferia se manifestando. Tem uma novidade aí". (Chico Buarque)

"Isso por toda parte, mas no Brasil, que eu conheço melhor, mesmo as velhas canções de reivindicação social, as marchinhas de Carnaval meio ingênuas, aquela história de 'lata d'água na cabeça' etc. e tal, normalmente isso era feito por gente de classe média. O pessoal da periferia se manifestava quase sempre pelas escolas de samba, mas não havia essa temática social muito acentuada, essa quase violência nas letras e na forma que a gente vê o rap. Esse pessoal junta uma multidão. Tem algo aí". (Chico Buarque)
  • Os fragmentos acima foram retirados de entrevistas concedidas por Chico Buarque. Disponíveis em <http://www.chicobuarque.com.br/texto/menuentrevistas.htm>, acesso em 27/04/2011. Disponíveis ainda em "Cinema-Canção", ensaio de Francisco Bosco, publicado em NESTROVSKI, Arthur. (Org). Lendo Música - 10 ensaios sobre 10 canções. São Paulo: Publifolha, 2007.

"Muita gente tem ojeriza com coisas que acontecem no Brasil, como o axé music, a música do carnaval da Bahia ou o funk carioca. São elitistas com medo e vergonha de de misturar com o que vem 'de baixo'." (Caetano Veloso)
  • Fragmento retirado de Bravo, junho de 2005, p.74.

"O funk carioca é nossa maior revolução cultural dos últimos tempos. O pancadão é uma evolução dionísica da contestação". (Lobão)
  • Fragmento retirado de Bravo, junho de 2005, p.76.

"Assim como o baião de Luiz Gonzaga, o funk descreve como crônica todo um universo próprio, com suas vestimentas, danças e gírias próprias. O Funk soube dar o pulo do gato, transformando o Miami bass numa batida única. Quem na história da música eletrônica usa samples de berimbau e de atabaque daquela maneira? do software aos soundsystems dos bailes, passando pela maneira roots de programar a bateria eletrõnica, tudo se deu como na história do dub jamaicano. o gosto estético dos que produzem funk é ditado por eles mesmos, calcado em sua verdade". (Lucas Santanna)
  • Fragmento retirado de Bravo, junho de 2005, p.77.

"A capoeira não vem mais, agora reagimos com a palavra (...)" (Ferréz. 2005, p.9)

"Cala a boca, negro e pobre aqui não tem vez! Cala a Boca!
Cala a boca uma porra, agora a gente fala, agora a gente canta, e na moral agora a gente escreve." (Ferréz. 2005, p. 9)

"Não somos o retrato, pelo contrário, mudamos o foco e tiramos nós mesmos a nossa foto." (Ferréz.2005, p. 9)

"A Literatura marginal, sempre é bom frisar, é uma literatura feita por minorias, sejam elas raciais ou socioeconômicas. Literatura feita à margem dos núcleos centrais do saber e da grande cultura nacional, isto é, de grande poder aquisitivo. Mas alguns dizem que sua principal característica é a linguagem, é o jeito como falamos, como contamos a história (...)". (Ferréz.2005, p. 12)
  • Fragmentos retirados de: FERRÉZ. (Org.). Literatura marginal: talentos da escrita periférica. Rio de janeiro: Agir, 2005.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Cartola, no moinho do mundo

"Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita em sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo.


Eu fiz o ninho. Te ensinei o bom caminho. Mas quando a mulher não tem brio, é malhar em ferro frio.



Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o velho samba de Cartola; Na Floresta (música de Sílvio Caldas).


Esse Cartola! Desta vez, está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei Sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: “Tenho um novo amor”, é como se desse a senha pela renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.

A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem me observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.

Em Tempos Idos, o divino Cartola, como o qualificou Lúcio Rangel, faz o histórico poético da evolução do samba, que se processou, aliás, com a sua participação eficiente:


Com a mesma roupagem que saiu daqui exibiu-se para a Duquesa de Kent no Itamaraty.



Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar o seu samba Quem Me Vê Sorrir (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockowski não lhe fez nenhum favor: reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes de nossa população. Coisa que contagiou a ilustre Duquesa.

* * *
Mas então eu fiquei parado, ouvindo a filosofia céptica do Mestre Cartola, na voz de Sílvio Caldas. Já não me lembrava o compromisso que tinha de cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não. Cartola devia estar muito ferido para dizer coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranqüilo, Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. “O mundo é um moinho...” O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar em lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação."






Pessoal, acima, a crônica do Drummond sobre o Cartola que ficamos de postar aqui no blog. Abaixo, a canção "O mundo é um moinho", que o Drummond cita na crônica, mas que, infelizmente, não ouvimos hoje. Para mim, a mais bonita dentre as cinco do Cartola que incluimos na nossa apresentação. Abraços a todos!



video


Ainda é cedo, amor


Mal começaste a conhecer a vida


Já anuncias a hora de partida


Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida


Embora eu saiba que estás resolvida


Em cada esquina cai um pouco a tua vida


Em pouco tempo não serás mais o que és


Ouça-me bem, amor


Preste atenção, o mundo é um moinho


Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.


Vai reduzir as ilusões a pó


Preste atenção, querida


De cada amor tu herdarás só o cinismo


Quando notares estás à beira do abismo


Abismo que cavaste com os teus pés

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Para quem não souber quem foi Mercedes Sosa e José Hernández

Queridos amigos,

Aqui deixo esclarecido quem foram as pessoas das quais eu falei nas minhas outras postagens:

José Hernández (1834 - 1886) foi um poeta, político e jornalista argentino, conhecido, principalmente, pelo livro Martín Fierro, considerado "o livro pátrio" da Argentina.

Mercedes Sosa (1935 — 2009) foi uma cantora argentina de grande apelo popular na América Latina. Com raízes na música folclórica argentina, ela se tornou uma das expoentes do movimento conhecido como Nueva Canción. Apelidada de La Negra pelos fãs devido à ascendência ameríndia (no exterior acreditava-se erroneamente que era devido a seus longos cabelos negros), ficou conhecida como a voz dos "sem voz".

Na minha postagem anterior ficou repetido "que cultura" duas vezes. Desconsiderar. Obrigado.

Minhas propostas para apresentar em sala de aula.

Queridos amigos e Alexandre,

Estou com vontade de escutar varias coisas. Podem escolher, que eu levo para a aula quando for o momento. A minha praia é os estudos comparativos:

1) No momento da "dor-de-cotovelo" e "a herança beletrista" estava pensando em escutar com vocês dois tangos: Uno, de Mariano Mores, cantado por Roberto Goyeneche e Naranjo en Flor, de Homero Expósito, cantado também por Roberto Goyeneche, e duas músicas "dor-de-cotovelo" de Maysa: Ouça e Meu mundo caiu, tratando do discurso amoroso da mulher e do discurso amoroso do homem e como o português e o espanhol tratam do amor desde o ponto de vista da lingua e da bagagem cultural que cultural que acarreta cada uma.

2) Quero escutar cantores em espanhol que cantam músicas em português e cantores em português que cantam músicas no espanhol:

Proponho escutar Mercedes Sosa, cantando um poema de Nicolás Guillén, cubano, em homenagem a Cândido Portinari,Un son para Portinari, musicalizado por Horácio Salinas, chileno, do grupo Inti Illimani. Ou ainda, gostaria de ver o video do Inti Illimani, para vocês verem os instrumentos, uso da sanfona, etc.

Por outra parte, gostaria de escutar com vocês Volver a los 17, de Violeta Parra, chilena, cantado por Mercedes Sosa, com Milton Nascimento, Chico Buarque, Gal Costa e Caetano Veloso. O vídeo está traduzido para o português.

Sei que não há tempo, mas gostaria de fazer escutar trechos ou os começos de outras músicas para ver nossos ritmos, um vallenato colombiano, um huayno boliviano-argentino, uma cueca chilena, uma zamba argentina, uma chacarera argentina, um carnavalito argentino, etc.

Não quero teorizar sobre a música, aproveitemos a sexta-feira e ouçamos música para curtir, para amar, para relaxar, para viver. Gastamos muito tempo falando em sala de aula, que nossa oficina seja para escutar e aprender música, para amar a música, para sentir ela com o coração. Façamos uma disciplina para a vida! Quero compartilhar estas coisas que sinto com vocês. Obrigado.

Morte e Vida Severina e Martín Fierro em contraste.

Amigos,

Aqui Severino se apresenta e também Martín se apresenta. Os dois começam o texto desde jeito para contar sua história. As problemáticas parece que se repetem.
O espanhol em está escrito o Martín Fierro é um espanhol rural do século XVIII e XIX, que ficaria extenso traduzir aqui. Prefiro, se houver tempo, fazer uma leitura compartilhada com vocês e ir traduzindo na seqüência, no decorrer da leitura oral, porque o canto Martín Fierro, embora esteja escrito, é tão oral como o canto do Severino e o canto nordestino.
A analise é recortada e énfatica nestes textos, mas também vejo elos e assuntos repetidos com Elomar e Patativa do Assaré, já escutados em sala de aula.

O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR
QUEM É E A QUE VAI
— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte Severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.


I
1
Aquí me pongo a cantar
al compás de la vigüela,
que el hombre que lo desvela
una pena estrordinaria,
como la ave solitaria
con el cantar se consuela.
2
Pido a los santos del cielo
que ayuden mi pensamiento.
Les pido, en este momento
que voy a cantar mi historia,
me refresquen la memoria
y aclaren mi entendimiento.
3
Vengan santos milagrosos,
vengan todos en mi ayuda,
que la lengua se me añuda
y se me turba la vista.
Pido a mi Dios que me asista
en una ocasión tan ruda.
4
Yo he visto muchos cantores,
con famas bien otenidas
y que después de alquiridas
no las quieren sustentar.
Parece que sin largar
se cansaron en partidas.
5
Mas ande otro criollo pasa
Martín Fierro ha de pasar.
Nada lo hace recular
ni los fantasmas lo espantan
y dende que todos cantan
yo también quiero cantar.
6
Cantando me he de morir,
cantando me han de enterrar,
y cantando he de llegar
al pie del Eterno Padre.
Dende el vientre de mi madre
vine a este mundo a cantar.
7
Que no se trabe mi lengua
ni me falte la palabra;
el cantar mi gloria labra
y, poniéndome a cantar,
cantando me han de encontrar
aunque la tierra se abra.
8
Me siento en el plan de un bajo
a cantar un argumento;
como si soplara el viento
hago tiritar los pastos.
Con oros, copas y bastos
juega allí mi pensamiento.
9
Yo no soy cantor letrao,
mas si me pongo a cantar
no tengo cuándo acabar
y me envejezco cantando.
Las coplas me van brotando,
como agua de manantial.
10
Con la guitarra en la mano
ni las moscas se me arriman.
Naides me pone el pie encima
y, cuando el pecho se entona,
hago gemir a la prima
y llorar a la bordona.
11
Yo soy toro en mi rodeo
y torazo en rodeo ajeno.
Siempre me tuve por güeno
y, si me quieren probar,
salgan otros a cantar
y veremos quien es menos.
12
No me hago al lao de la güeya
aunque vengan degollando;
con los blandos yo soy blando
y soy duro con los duros.
Y ninguno en un apuro
me ha visto andar tutubiando.
13
En el peligro ¡qué Cristos!
el corazón se me enancha,
pues toda la tierra es cancha,
y de esto naides se asombre:
el que se tiene por hombre
ande quiera hace pata ancha.
14
Soy gaucho, y entiendaló
como mi lengua lo esplica:
para mí la tierra es chica
y pudiera ser mayor;
ni la víbora me pica
ni quema mi frente el sol.
15
Nací como nace el peje
en el fondo de la mar;
naides me puede quitar
aquéllo que Dios me dio:
lo que al mundo truje yo
del mundo lo he de llevar.
16
Mi gloria es vivir tan libre
como el pájaro del cielo;
no hago nido en este suelo
ande hay tanto que sufrir,
y naides me ha de seguir
cuando yo remuento el vuelo.
17
Yo no tengo en el amor
quien me venga con querellas.
Como esas aves tan bellas,
que saltan de rama en rama,
yo hago en el trébol mi cama
y me cubren las estrellas.
18
Y sepan cuantos escuchan
de mis penas el relato,
que nunca peleo ni mato
sino por necesidá
y que a tanta alversidá
sólo me arrojó el mal trato.
19
Y atiendan la relación
que hace un gaucho perseguido,
que padre y marido ha sido
empeñoso y diligente,
y sin embargo la gente
lo tiene por un bandido.


Espero que tenham gostado da leitura. Muito obrigado pela atenção.

Martin Fierro em contraste com Morte e Vida Severina, a Pampa e a Sesmaria, dos discursos análogos

Amigos meus,

não pretendo teorizar muito sobre isto de comparar os dois textos, foi dificil pegar um trecho representativo de cada obra, já que as analises que podem se fazer são infinitas. Decidi fazer um recorte, não sei se bem feito, da introdução destes dois textos, a apresentação de Martin Fierro e de Severino, chamando a atenção de vocês para conceitos que além das fronteiras são comuns aos seres humanos, o amor é algo compartilhado por todos, o sofrimento, a imensidão da terra: a Pampa (terra sem árvores, em linguagem indígena Pampa) e o Sertão Nordestino.

Martín Fierro, obra de José Hernández, é um poema em sextilha que as vezes usa redondilha, composta de dois livros: o primeiro -Martín Fierro- foi escrito em 1872 e o segundo -La Vuelta de Martín Fierro- dado o sucesso de vendas do primeiro, en 1879. Relata a vida de um gaucho (não gaúcho) que inicialmente era bucólico e trabalhador, para prestar serviço militar obrigatório (leva forzada)foi para a fronteira para defendé-la dos indios.

Aí as condições de vida eram muito duras, pois os índios atacavam as populações em forma de "malón", roubavam, matavam e levavam cativas às mulheres. Alí os soldados ganhavam pouco dinheiro, sofriam os abusos dos chefes militares, que obrigavam eles a trabalhar nas terras e para poder comer saiam a caçar avestruzes (ñandúes ou "ñanduzes") e vendiam as penas.

Martín Fierro deserta do exército e quando volta para sua casa seu rancho estava destruido e sua mulher e filhos dispersos, pelo qual ele vira um "gaucho matrero" (gaucho violento). Borges tomará estas figuras da literatura gauchesca posteriormente.

Martín Fierro se junta a um outro gaucho, chamado Cruz, depois de uma briga com a polícia por causa de ele ter matado um homem numa "pulpería" (lugar onde se tomava alcool e paravam as carruagens para se abastecer) e começam várias aventuras. Cruz tinha perdido seu filho e sua mulher tinha lhe traido com o chefe de uma milicia. Passamos ao livro seguinte.

Já na Vuelta de Martín Fierro, depois de muitas andanças nas "tolderías" (lugar onde moravam os indios) morre Cruz, Martín Fierro fica sozinho e triste mas encontra seus filhos, que narram ter estado com um tutor desonesto e aproveitador, o Viejo Vizcacha, quem costumava dar conselhos oportunistas. Também encontra com o filho de Cruz, Picardía, quem conta seus causos.

No final, ele encontra também o irmão do homem que matou e canta com ele também uma "payada" (forma como se chama a este tipo de poema que se canta a dois violões como se eles estivessem em duelo) e reflexionam, em um brilhante contrapunto em que se misturam poesia e filosofía, sobre o céu, a terra, o mar, o amor, a lei, a unidade, a quantidade, o tempo. Martin Fierro se despede dando sabios conselhos aos seus filhos e ao de Cruz: que sejam honradois, unidos, que trabalhem e que não percam o tempo. Admitindo que ele mesmo não foi um bom exemplo, encoraja eles a que

El hombre no mate al hombre
Ni pelee por fantasía.
Tiene en la desgracia mía
Un espejo en que mirarse.


Na próxima postagem, para este texto não ficar longo e pesado de ler, coloco a apresentação de Severino e de Martín Fierro em contraste. Obrigado pela atenção.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Que o Deus venha - Clarice Lispector

"Precisando mais do que a força humana. Sou forte mas também destrutiva. O Deus tem que vir a mim já que não tenho ido a Ele. Que o Deus venha: por favor. Mesmo que eu não mereça. Venha. Ou talvez os que menos merecem mais precisem. Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieta é porque preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Mas sei que terei paz antes da morte e que experimentarei um dia o delicado da vida. Perceberei - assim como se come e se vive o gosto da comida. Minha voz cai no abismo de teu silêncio. Tu me lês em silêncio. Mas nesse ilimitado campo mudo desdobro as asas, livre para viver. então aceito o pior e entro no âmago da morte e para isto estou viva. O âmago sensível. E vibra-me esse it."
(In: LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Artenova, 1973)

Que o Deus Venha
Composição: Cazuza/ Roberto Frejat/ Clarice Lispector

Sou inquieto, áspero
E desesperançado
Embora amor dentro de mim eu tenha
Só que eu não sei usar amor
Às vezes arranha
Feito farpa

Se tanto amor dentro de mim
Eu tenho, mas no entanto
Continuo inquieto
É que eu preciso que o Deus venha
Antes que seja tarde demais

Corro perigo
Como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É o inesperado

Mas eu sei
Que vou ter paz antes da morte
Que vou experimentar um dia
O delicado da vida
Vou aprender
Como se come e vive
O gosto da comida

http://www.youtube.com/watch?v=0QirXy9Z3s8

segunda-feira, 4 de abril de 2011

"Muito romântico" por Caetano Veloso

Caros colegas,
Estive procurando um pouco de informações sobre a música “Muito romântico” que ouvimos na última aula e achei um comentário bem interessante, referente à versão cantada por Caetano Veloso.  Deem uma olhada e esclareçam minhas dúvidas, por favor. (rs)


A Composição Passional de Caetano Veloso na Canção Muito Romântico
Acreditando ser a abordagem mais apropriada para o assunto proposto, considerando ainda ser o nome da disciplina Prosódia e não Análise, será enfatizada a poesia sobre a música; as direções musicais aqui abordadas serão estritamente melódicas e em função da poesia. Para tanto, alguns conceitos são representativos, mesmo se não citados durante o desenvolvimento da análise. Entre eles figuram os dêiticos,  que indicam a situação enunciativa em que se encontra o compositor ou intérprete da canção, e os tonemas; inflexões melódicas que podem ser ascendentes, descendentes ou estáticas, em suspensão.

Poesia
Muito Romântico (Caetano Veloso)
Gravada em 1978 no disco Muito
Não tenho nada com isso, nem vem falar              A
Eu não consigo entender sua lógica
Minha palavra cantada pode espantar
E a seus ouvidos parecer exótica                       
Mas acontece que eu não posso me deixar           B
Levar por um papo que já não deu, não deu
Acho que nada restou para guardar ou lembrar
Do muito ou pouco que houve entre você e eu      
Nenhuma força virá me fazer calar                      A
Faço no tempo soar minha sílaba
Canto somente o que pede pra se cantar
Sou o que soa eu não douro pílula                     
Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior   B
Com todo mundo podendo brilhar num cântico
Canto somente o que não pode mais se calar
Noutras palavras sou muito romântico 
               
Analisando Verso por Verso
Nesse tópico será analisada a poesia, verso por verso, sempre acompanhada do desenvolvimento melódico como reforço de intenção do compositor. A melodia, criada em forma de sentença, é composta por três notas descendentes com duração de tercinas de colcheia, durante quase toda a canção. Além disso o intérprete usa o legatto como recurso de expressão. Somadas, essas características remetem a conclusão de que a poesia é sustentada por uma continuidade melódica.
Não tenho nada com isso nem vem falar – Eu não consigo entender sua lógica, usando advérbios de negação (não, nem) no começo dos versos,  o compositor deixa transparecer incompreensão, ou ainda uma atitude inconformada, de revolta.

Minha palavra cantada pode espantar – e ao seus ouvidos parecer exótica. Aqui o compositor assume sua revolta introduzida no verso anterior, demonstrando ciência de sua brutalidade e alteração, como dizendo “eu sei que posso te assustar, e isso vai soar estranho”. A melodia é ainda idêntica ao verso anterior.

Mas acontece que eu não posso me deixar – Levar por um papo que já não deu, não deu. O autor afirma que não pode se abalar por uma conversa muito mal assimilada, de difícil aceitação, cujo conteúdo não é revelado. A melodia ressalta as palavras não deu, não deu, prolongando-as e atingindo o ápice do âmbito melódico, via tonemas ascendentes, propondo a prorrogação da tensão emotiva. Exemplo de comunhão perfeita entre texto e melodia.

Acho que nada restou para guardar ou lembrar – Do muito ou pouco que houve entre você e eu. Com esse verso a relação que unia o protagonista ao destinatário da canção (provavelmente uma mulher, com certeza uma pessoa que foi muito querida, em algum tempo) é praticamente anulada e desmerecida. Na gravação de Caetano (no disco Muito) os pronomes você e eu são repetidos uma vez, sublinhando o que antes fora uma relação amorosa. Esse verso também finaliza o primeiro chorus da música.
Nenhuma força virá me fazer calar – Faço no tempo soar minha sílaba Novamente ao iniciar um chorus é reforçada a idéia de revolta acrescida da necessidade de expressão, talvez como catarse. O segundo verso transmite uma idéia de poesia, remetendo a uma alma poética, sensível, musical.

Canto somente o que pede para se cantar Quem pede aqui é possivelmente o coração de seu compositor, seu eu-lírico, sua alma de poeta. Converge com o verso anterior no sentido da necessidade de expressão e da busca pela verdade, como um cientista solucionando desafios e buscando assim aquietar a alma.

Sou o que soa eu não douro pílula Reforça a idéia de imposição, vigor e sinceridade do orador, que não tem meias palavras, é conciso e sem rodeios, doa a quem doer.

Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior – Com todo mundo podendo brilhar, num cântico Aqui um dos versos chave para a interpretação do protagonista; a idealização de comunhão, sem dor, só a felicidade. Mas para isso é necessário externar todo o sentimento, desabafar e livrar-se desse estado de ânimo. É a prova de que a melancolia não é um objetivo, uma certeza, mas uma transição e que o fato de ainda não ter transcendido atordoa, aflige.

Canto somente o que não pode mais se calar Esse verso escancara a tendência ao desabafo, o extravasar de um sentimento que precisa ser compartilhado em busca de conforto e compaixão.

Noutras palavras sou muito romântico  O último verso da música explica o estado de espírito do protagonista, justifica suas colocações evidenciando sua passionalidade, sua herança latina, que tende ao sofrimento e a exacerbação dos assuntos passionais.

Entendendo as Tensões Passionais
As nuances entre continuidade e segmentação da melodia são consideradas tensões cruciais na descrição da gestualidade oral contida em uma canção.  Nessa canção, ao investir na continuidade melódica, (como visto no tópico anterior) no prolongamento das vogais, o autor está fundindo todo o percurso da canção com o ser e com os estados da paixão. Esse comportamento melódico será classificado como passionalização.
  
Conclusão: Canção de Amor?
O autor não pronuncia em nenhum momento a palavra amor, nem nome de mulher e não diz explicitamente que está sofrendo.  Apesar disso, a canção é passional; aproveita a linearidade linguística para reconstruir a experiência presenciada, relatada nessa canção de forma direta (aqui e agora, não num tempo passado). A intensidade emotiva é dosada com inclinações da linha melódica. O ouvinte capta a experiência vivida e se espelha nos acontecimentos, via melodia, sem a necessidade de clichês e lugares-comum. Assim se instaura uma espécie de acordo tácito entre a fonte (compositor) e o receptor (ouvinte). 
         
Caetano raramente demonstra em sua poesia a tensão passional; apenas deixa transparecer um núcleo tensivo por trás dos ícones, que são sugestivos e imprevisíveis. Na análise passo-a-passo da letra esse núcleo tensivo fica evidente desde o primeiro verso, com negativas e incisão.
É essa determinação tensiva da melodia, fundamentada na repetição das tercinas descendentes, somada a vestígios narrativos disseminados ao longo do texto (você e eu, no final do primeiro chorus, por exemplo) que garante que as mensagens passionais estão sendo transmitidas.


 Meu comentário sobre o texto é o seguinte: Eu achei a interpretação muito bem feita, mas ela me parece muito mais preocupada no poema da música do que necessária nas características musicais dela. Gostei muito sobre o dito referente a catarse que o eu-lírico passa em um dos versos do poema e a referência sobre as tensões passionais da temática poética. Tive algumas dúvidas quanto a alguns termos que acredito serem técnicos da música. Se puderem me ajudar, gostaria de saber o que são tonemas,  legatto  e tercinas de colcheia.
Além dessas dúvidas a nível vocabular me veio uma  outra questão: Qual a melhor forma de trabalhar a música na literatura sem acabar levando em conta demais  o lado poético da canção (como pareceu-me a análise acima) ?



domingo, 3 de abril de 2011

"E agora vem dizer, morena?"

Tantas morenas já foram recitadas no cancioneiro brasileiro: A morena tropicana, vestida dos sabores de frutas tropicais; a dos olhos d'água; ou uma tal morena-flor.
Uma figura muito bem desenhada por uns, ou melhor, transferida do campo social de modo singular para as canções. Vista pela maioria como um ser dotado de requebrados baronis, dotada de uma sensualidade exemplar. Será és?
De onde vem isso? Será de uma herança totalmente preconceituosa? Quem explica isso?
A posição da negro no Brasil não é uma das melhores, como todos já sabemos, assim espero. Porém vou me restringir falar do papel mestiço, e principalmente, da morena na sociedade.
Qual é a primeira imagem que se tem da MULHER e MORENA? Alguns vão pensar na dançarina de samba, ou aquela, como já disse, "dotada de uma sensualidade exemplar".
São elas, frutos de uma mestiçagem, que deveria dizer, é a constituição de uma identidade nacional. Furto a fala de José Carlos Ruy quando digo: "A mestiçagem é sinônimo de democracia racial?". Será que realmente acontece dessa forma?
O mais interessante como essa "ideologia" é transplantada para repertório musical, de forma tão maciça. Falar da morena na música é por-la em uma patamar, totalmente, idealizado. Como a mulher da natureza, companheira do mar e dos animais. Até mais idealizada que as senhoras do Romantismo ou do Arcadismo. Como é impressionante!!!
É incrível ver, como eu, uma mulher, morena, sou reduzida a um protótipo. E como esse protótipo é tão bem vendido, e está ai, nas rádios todos os dias.
Finalizo, aqui, com uma poesia, que o autor pouco interessa; mas acho que mostra essa loucura ao se falar desse indivíduo. Advirto, a vocês, queridos companheiros de oficina, sobre a importância deste assunto.

Tantos dizem sobre a morena.
Símbolo da sensualidade brasileira.
De requebrados e falácias.
Mas o que sou eu?
Senão uma morena sem cor.
As vezes sem requebrados baronis.
Falta-me o encanto da raça,
o foco da luz.
Busco a serenidade,
invés da sensualidade da cor.
Busco o pensamento,
invés o protótipo.
Busco um príncipe,
que se encante mais por meus objetivos.
Do que por meus olhares diferentes.
Meus olhos são mais que raros, mel.
Representam o que sou,
meu pensamento.
Dizem que sou morena,
brasileira.
Eu digo:
Dissimulada e oblíqua.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Aula de 08/04

1)
PERRONE, Charles A. Letras e letras da MPB. Rio de Janeiro: Booklink, 2008. - Capítulos 1 e 2.

2)
Seminário de leitura: Adrieli, Carol e Juliana
"A abordagem do amor desde as cantigas de amigo às canções de Cartola"

3)
Audição programada: "Que o Deus venha", música do Cazuza com texto da Clarice Lispector (Pâmela)