quinta-feira, 12 de maio de 2011

Chamada de publicação - Darandina Revisteletrônica

Ementa:

Apontamentos sobre a canção brasileira na interface literatura/música


Tem sido cada vez maior o interesse em ler e pesquisar a canção brasileira de
modo interdisciplinar e interdepartamental. Tendo em vista a proliferação de debates
atuais sobre o tema em questão sugerimos discutir e problematizar, em Letras, a
concepção urbana de canção, na clave de reflexão da crítica cultural contemporânea. O
objetivo é pensar a palavra cantada a partir do final dos anos 60 na interface literatura/
música, nos seguintes aspectos: memória, voz, corpo, performance, identidade, nação,
mercado e suportes midiáticos.

Os trabalhos para a 7ª edição serão recebidos até 13 de maio de 2011.

Solicitamos aos nossos colaboradores que observem atentamente as normas técnicas para publicação, disponíveis no site, pois elas sofreram algumas alterações. Também solicitamos aos autores que, ao enviarem seus trabalhos, escrevam no campo assunto” do e-mail o título da ementa desta edição - “Apontamentos sobre a canção brasileira na interface literatura/música”.

Obs.: Os graduandos e os graduados precisam do parecer de um professor do PPG - Estudos Literários.

Comissão editorial da Darandina Revisteletrônica

http://www.ufjf.br/darandina/

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Marcelo Camelo




"Marcelo de Souza Camelo (Rio de Janeiro, 4 de fevereiro de 1978) é um compositor, cantor, guitarrista, violinista e poeta brasileiro. Foi vocalista e guitarrista da banda de rock alternativo Los Hermanos. Atualmente, o cantor segue em carreira solo."

(Fonte: Wikipedia)









DESPEDIDA
Eu não sou daqui também marinheiro
Mas eu venho de longe
E ainda do lado de trás da terra além da missão comprida
Vim só dar despedida

Filho de sol poente
Quando teima em passear
desce de sal nos olhos doente da falta de voltar

Filho de sol poente
Quando teima em passear
desce de sal nos olhos doente da falta que sente do mar
Vim só dar despedida


SAMBA A DOIS
Quem se atreve a me dizer do que é feito o samba?
Quem se atreve a me dizer?

Não, eu não sambo mais em vão
O meu samba tem cordão
O meu bloco tem sem ter e ainda assim
Sambo bem a dois por mim
Bambo e só, mas sambo, sim
Sambo por gostar de alguém, gostar de

Me lavra a alma, me leva embora
Deixa haver samba no peito de quem...(chora)

...se atreve a me dizer
Do que é feito o samba ?

Quem me ensinou a te dizer
"Vem que passa o teu sofrer"
Foi mais um que deu as mãos entre nós dois
Eu entendo o seu depois
Não me entenda aqui por mal
Mas pro samba foi vital falar em...

Me laça a alma, me leva agora
Já que um bom samba não tem lugar nem...(hora)

...se atreva a me dizer
Do que é feito o samba
Nem se atreva a me dizer


TEM MAIS SAMBA - Chico Buarque
Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer

Vem que passa
Teu sofrer
Se todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver


terça-feira, 3 de maio de 2011

Citando Chico

Aproveito as recentes citações do Chico Buarque postadas pela Wal no blog para retomar outro texto dele, que comentei em um dos primeiros encontros da oficina. "Nem toda loucura é genial, nem toda lucidez é velha" foi publicado no jornal Última Hora, em 09/12/68. O texto situa um momento de embates e contradições na MPB propício para modalizar questões da cultura que costumam levantar polêmicas e demarcações de posição. Podemos pensar isso em função do que estudamos agora: rap, funk e literatura da periferia, não acham?
Estava mal chegando a São Paulo, quando um repórter me provocou: "Mas como, Chico, mais um samba? Você não acha que isso já está superado?" Não tive tempo de me defender ou de atacar os outros, coisa que anda muito em voga. Já era hora de enfrentar o dragão, como diz o Tom. Enfrentar as luzes, os cartazes, e a platéia, onde distingui um caro colega regendo um coro pra frente, de franca oposição. Fiquei um pouco desconcertado pela atitude do meu amigo, um homem sabidamente isento de preconceitos. Foi-se o tempo em que ele me censurava amargamente, numa roda revolucionária, pelo meu desinteresse em participar de uma passeata cívica contra a guitarra elétrica. Nunca tive nada contra esse instrumento, como nada tenho contra o tamborim. O importante é ter Mutantes e Martinho da Vila no mesmo palco.

Mas, como eu ia dizendo, estava voltando da Europa e de sua música estereotipada, onde samba, toada etc. são ritmos virgens para seus melhores músicos, indecifráveis para seus cérebros eletrônicos. "Só tenho uma opção, confessou-me um italiano - sangue novo ou a antimúsica. Veja, os Beatles, foram à Índia..." Donde se conclui como precipitada a opinião, entre nós, de que estaria morto o nosso ritmo, o lirismo e a malícia, a malemolência. É certo que se deve romper com as estruturas. Mas a música brasileira, ao contrário de outras artes, já traz dentro de si os elementos de renovação. Não se trata de defender a tradição, família ou propriedade de ninguém. Mas foi com o samba que João Gilberto rompeu as estruturas da nossa canção. E se o rompimento não foi universal, culpa é do brasileiro, que não tem vocação pra exportar coisa alguma. Quanto a festival, acho justo que estejam todos ansiosos por um primeiro prêmio. Mas não é bom usar de qualquer recurso, nem se deve correr com estrondo atrás do sucesso, senão ele se assusta e foge logo. E não precisa dar muito tempo para se perceber "que nem toda loucura é genial, como nem toda lucidez é velha."


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Para refletir:
As expressões culturais produzidas nas periferias pobres das metrópoles brasileiras contribuem para (re)significar o imaginário nacional?

A periferia entra em cena

"Quando voçê vê um fenômeno como o rap, isso é de certa forma uma negação da canção tal como a conhecemos". (Chico Buarque)

"Talvez tenha razão quem disse que a canção, como a conhecemos, é um fenômeno próprio do século passado, tal é a quantidade de releituras, de compilações, de relançamentos, de gente cantando clássicos - e isso no mundo inteiro". (Chico Buarque)

"No Brasil, isso é nítido. Noel Rosa formatou essa música nos anos 30. Ela vigora até os anos 50 e aí vem a bossa nova, que remodela tudo - e pronto". (Chico Buarque)

"A minha geração, que fez aquelas canções todas, com o tempo só aprimorou a qualidade da sua música. Mas o interesse hoje por isso parece pequeno. Por melhor que seja, por mais aperfeiçoada que seja, parece que não acrescenta grande coisa ao que já foi feito". (Chico Buarque)

"Acho esse fenômeno do rap muito interessante. Não só o rap em si, mas o significado da periferia se manifestando. Tem uma novidade aí". (Chico Buarque)

"Isso por toda parte, mas no Brasil, que eu conheço melhor, mesmo as velhas canções de reivindicação social, as marchinhas de Carnaval meio ingênuas, aquela história de 'lata d'água na cabeça' etc. e tal, normalmente isso era feito por gente de classe média. O pessoal da periferia se manifestava quase sempre pelas escolas de samba, mas não havia essa temática social muito acentuada, essa quase violência nas letras e na forma que a gente vê o rap. Esse pessoal junta uma multidão. Tem algo aí". (Chico Buarque)
  • Os fragmentos acima foram retirados de entrevistas concedidas por Chico Buarque. Disponíveis em <http://www.chicobuarque.com.br/texto/menuentrevistas.htm>, acesso em 27/04/2011. Disponíveis ainda em "Cinema-Canção", ensaio de Francisco Bosco, publicado em NESTROVSKI, Arthur. (Org). Lendo Música - 10 ensaios sobre 10 canções. São Paulo: Publifolha, 2007.

"Muita gente tem ojeriza com coisas que acontecem no Brasil, como o axé music, a música do carnaval da Bahia ou o funk carioca. São elitistas com medo e vergonha de de misturar com o que vem 'de baixo'." (Caetano Veloso)
  • Fragmento retirado de Bravo, junho de 2005, p.74.

"O funk carioca é nossa maior revolução cultural dos últimos tempos. O pancadão é uma evolução dionísica da contestação". (Lobão)
  • Fragmento retirado de Bravo, junho de 2005, p.76.

"Assim como o baião de Luiz Gonzaga, o funk descreve como crônica todo um universo próprio, com suas vestimentas, danças e gírias próprias. O Funk soube dar o pulo do gato, transformando o Miami bass numa batida única. Quem na história da música eletrônica usa samples de berimbau e de atabaque daquela maneira? do software aos soundsystems dos bailes, passando pela maneira roots de programar a bateria eletrõnica, tudo se deu como na história do dub jamaicano. o gosto estético dos que produzem funk é ditado por eles mesmos, calcado em sua verdade". (Lucas Santanna)
  • Fragmento retirado de Bravo, junho de 2005, p.77.

"A capoeira não vem mais, agora reagimos com a palavra (...)" (Ferréz. 2005, p.9)

"Cala a boca, negro e pobre aqui não tem vez! Cala a Boca!
Cala a boca uma porra, agora a gente fala, agora a gente canta, e na moral agora a gente escreve." (Ferréz. 2005, p. 9)

"Não somos o retrato, pelo contrário, mudamos o foco e tiramos nós mesmos a nossa foto." (Ferréz.2005, p. 9)

"A Literatura marginal, sempre é bom frisar, é uma literatura feita por minorias, sejam elas raciais ou socioeconômicas. Literatura feita à margem dos núcleos centrais do saber e da grande cultura nacional, isto é, de grande poder aquisitivo. Mas alguns dizem que sua principal característica é a linguagem, é o jeito como falamos, como contamos a história (...)". (Ferréz.2005, p. 12)
  • Fragmentos retirados de: FERRÉZ. (Org.). Literatura marginal: talentos da escrita periférica. Rio de janeiro: Agir, 2005.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Cartola, no moinho do mundo

"Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita em sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo.


Eu fiz o ninho. Te ensinei o bom caminho. Mas quando a mulher não tem brio, é malhar em ferro frio.



Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o velho samba de Cartola; Na Floresta (música de Sílvio Caldas).


Esse Cartola! Desta vez, está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei Sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: “Tenho um novo amor”, é como se desse a senha pela renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.

A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem me observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.

Em Tempos Idos, o divino Cartola, como o qualificou Lúcio Rangel, faz o histórico poético da evolução do samba, que se processou, aliás, com a sua participação eficiente:


Com a mesma roupagem que saiu daqui exibiu-se para a Duquesa de Kent no Itamaraty.



Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar o seu samba Quem Me Vê Sorrir (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockowski não lhe fez nenhum favor: reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes de nossa população. Coisa que contagiou a ilustre Duquesa.

* * *
Mas então eu fiquei parado, ouvindo a filosofia céptica do Mestre Cartola, na voz de Sílvio Caldas. Já não me lembrava o compromisso que tinha de cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não. Cartola devia estar muito ferido para dizer coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranqüilo, Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. “O mundo é um moinho...” O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar em lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação."






Pessoal, acima, a crônica do Drummond sobre o Cartola que ficamos de postar aqui no blog. Abaixo, a canção "O mundo é um moinho", que o Drummond cita na crônica, mas que, infelizmente, não ouvimos hoje. Para mim, a mais bonita dentre as cinco do Cartola que incluimos na nossa apresentação. Abraços a todos!




Ainda é cedo, amor


Mal começaste a conhecer a vida


Já anuncias a hora de partida


Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida


Embora eu saiba que estás resolvida


Em cada esquina cai um pouco a tua vida


Em pouco tempo não serás mais o que és


Ouça-me bem, amor


Preste atenção, o mundo é um moinho


Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.


Vai reduzir as ilusões a pó


Preste atenção, querida


De cada amor tu herdarás só o cinismo


Quando notares estás à beira do abismo


Abismo que cavaste com os teus pés

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Para quem não souber quem foi Mercedes Sosa e José Hernández

Queridos amigos,

Aqui deixo esclarecido quem foram as pessoas das quais eu falei nas minhas outras postagens:

José Hernández (1834 - 1886) foi um poeta, político e jornalista argentino, conhecido, principalmente, pelo livro Martín Fierro, considerado "o livro pátrio" da Argentina.

Mercedes Sosa (1935 — 2009) foi uma cantora argentina de grande apelo popular na América Latina. Com raízes na música folclórica argentina, ela se tornou uma das expoentes do movimento conhecido como Nueva Canción. Apelidada de La Negra pelos fãs devido à ascendência ameríndia (no exterior acreditava-se erroneamente que era devido a seus longos cabelos negros), ficou conhecida como a voz dos "sem voz".

Na minha postagem anterior ficou repetido "que cultura" duas vezes. Desconsiderar. Obrigado.