quinta-feira, 2 de junho de 2011

Vandré "Das Terras do Benvirá": Utopia e Barbárie na MPB

Segue abaixo um texto que eu postei há algum tempo num blog meu sobre música que anda jogado às traças. São impressões sobre um disco do Vandré feito já no exílio. Vai como contribuição sobre o tema do encontro da sexta-passada. Abraços!

(Edson Leão)

Apesar da minha filiação ao tropicalismo e ao rock, como algumas das minhas principais influências, sempre me impressionou a força épica que a voz e melodias de Geraldo Vandré (representante fundamental da “canção de protesto”) imprimiam a seus versos contundentes. Particularmente me marcou muito a intensidade e integridade do álbum “Canto Geral” (1968), ao passo que este “Nas terras do benvirá”, que ouvi pela primeira vez na mesma época em que conheci o anterior, sempre me pareceu um pouco inacessível. Arrastado, triste, sombrio e sempre em tom de lamento, ele não me conquistou nas primeiras tentativas, embora de tempos em tempos eu retornasse a ele, talvez por algum incomodo profundo que ele me causasse.


Hoje à luz de uma nova audição, quase três décadas após a aquisição do vinil, e talvez, sensibilizado pelo excepcional documentário “Utopia e Barbárie”( de Silvio Tendler) fui arrebatado exatamente pelos mesmos aspectos que me afastaram nas primeiras tentativas (mistérios da experiência estética!). Numa despretensiosa retomada desta obra, já nos primeiros minutos ela me soou como um dos mais dramáticos registros do sentimento de toda uma geração, diante da barbárie imposta pela ditadura.


Inevitável não me remeter ao mistério que cerca a figura do compositor, entre lendas (descartadas pelo próprio) sobre torturas (que teriam culminado em castração e na conseqüente loucura - também desmentidas por ele), o silêncio artístico de décadas (quebrado pela estranheza de uma canção em homenagem à Força Aérea), e o isolamento pessoal e em relação à música popular (já que segundo o próprio, ele teria se tornado ouvinte de música clássica, e se desinteressado pela MPB).


Respeitado o direito de um homem, de dar sua própria versão sobre sua história, ou mesmo o direito de silenciar sobre ela, me sinto no entanto, no também no direito de manifestar meus sentimentos ao ouvir novamente este desconcertante álbum.

Na minha impressão de ouvinte, poucos discos transmitem, com uma carga de dor tão profunda, o sentimento de uma geração que teve sonhos, liberdades e até vidas ceifadas pela ditadura.


O simples fato de ter sido gravado em pleno exílio, nos primeiros anos da década de 70 (os créditos são de 73, mas cheguei a achar referências de que teria sido gravado na França em 1970 e só lançado no Brasil, 3 anos mais tarde), já permitiria uma leitura nesse sentido, mas o principal aval para uma interpretação dessa natureza está nas características estéticas que predominam no LP.


A instrumentação, predominantemente arrastada e melancólica, compõe um tecido sombrio que flui como um lamento visceral que não pode (ou não quer) se conter e que parece não se esgotar em cada canção... parece antes, continuar mesmo após o fim de cada faixa, seja porque o sentimento segue na memória, após a audição, como um moto perpétuo... seja porque prossegue na canção seguinte, da mesma forma que os dias de uma tristeza não curada se sucedem quase indistintos para quem os vivencia.


A interpretação de Vandré que oscila entre o sussurro e o grito parece à todo momento um choro viril, como o de um guerreiro ferido em combate, em diálogo constante com a harmônica, de uma tristeza cortante, entrelaçada aos fraseados melancólicos dos violões, violas e aos eventuais vocais sobrepostos.


Em aparente contradição com o que o tratamento musical aponta, o texto da canção de abertura “Na terra como no céu”, anuncia: “Não viemos por teu pranto/nem viemos pra chorar/viemos ao teu encontro/e estamos no teu altar/vou seguir nosso caminho/que é também seu caminhar/na força do teu carinho/esperamos nos salvar/na terra como no céu/no sertão como no mar/nas serrar ou nas planuras/esperamos nos salvar/estando sempre altura/nos teus caminhos lutar/reparte entre nós o pão/diante do seu altar/a justiça e a riqueza/que fizemos por ganhar”(...).


A busca por justiça social que pautou os principais trabalhos sessentistas de Vandré se mntém como força motriz, mas o tom de súplica religiosa, não oculta um certo sentimento de impotência diante da realidade:”não deixa a gente passar/pela fome em tua mesa/não viemos por teu pranto/nem viemos pra chorar”. Curiosamente, a essa frase se segue um belissimo e sofrido vocal que arrepia por seu tom de lamento. Contradição, ou intencional efeito irônico?


É dificil não associar os versos sofridos que se seguem (na faixa que dá título ao disco) ao contexto de ditadura, de censura e o momento de um homem que canta no exílio: “O anel que tu me deste/eu guardei pra me ajudar/construi numa viola/de madeira o teu altar/o amor que tu me tinhas/eu roubei pra me salvar/toda hora em que a danada da saudade/me pegá/Joema dos olho claros/bem verdes da cor do mar/me dava tanta alegria/que eu não preciso sonhar/basta me lembrar agora/das coisas que deixei lá/Joema sempre esperando/na praia do grande mar/Waldomiro das estrelas/não podia se encontrar/tinha tudo que queria/dizia tudo há pintar/olhando pro céu de frente/perdido sempre em chegar/Waldomiro das estrelas/pedia para voltar”.


A certeza messiânica de quem escreveu “quem sabe faz a hora/ não espera acontecer”, ou “o terreiro lá de casa não se varre com vassoura/varre com ponta de sabre e bala de metralhadora”, dá lugar à perplexidade e a um desamparo que pede por redenção: “que faço agora Maria/que faço agora diz já/ de longe que eu ouço hoje/as coisas que vão voltar/em ti em ti e comigo/agora no Deus dará/das coisas de todo mundo/na vida do bendirá”


Mas o tom aguerrido do militante da “canção de protesto” permanece vivo em “Vem vem” : “morena saia da frente/que agora eu já vou passar/vem vem maria/vem vem joão/
vem virgulino meu capitão/eu canto canto/eu brigo a briga/porque sou forte e tenho razão/saia da minha frente/que agora eu quero passar/vai companheiro/vai meu irmão/no paraíso canta a canção/que diz da vida/que diz da morte/que anda solta no meu sertão/vem vem maria/vem vem joão/vem virgulino meu capitão/eu tomo a vida que esta na morte/se a morte as vezes é solução”. A retomada da figura mítica do cangaceiro pode sugerir uma analogia com a condição de marginalidade à qual fora relegada a resistência política ao regime. Contra a violência estatal, só a violência clandestina que se torna aos olhos da oficialidade, análoga ao “banditismo”?


E a dor do exílio salta de novo das entrelhinhas de “Canção primeira”, assim como a impossibilidade de ações efetivas que encontram seu substituto simbólico na “canção primeira/ livre e livradeira”: “A canção primeira/como a derradeira/não vá, te negar/A canção primeira/sem eira e nem beira/é só te lembrar/Na viola amiga,/que é chegada antiga/pra te acompanhar/Da canção primeira/livre e livradeira/que eu quero te dar/Compreende amiga/que eu não marque ainda/quando te encontrar/Que eu faça cumprida,/tanto quanto a vida/que foi só cantar/Dessa história antiga,/às vezes cantiga/pra eu poder contar/De ti companheira,/tu de corpo inteira/como eu pude amar/E perdoa amiga,/que eu não vá /correndo/hoje te abraçar/Nem cortar caminho,/nessa caminhada/que é pra te encontrar/Que eu guarde a esperança,/que vem vindo o dia/de poder voltar/Sem ter na chegada,/que morrer amada,/ou de amor matar”.


Se um dia teremos uma versão completa sobre a história desse grande artista da nossa canção e que possa desmentir ou confirmar as lendas que o cercam, é impossível prever. Mas o que parece certo após a audição de “Nas terras do benvirá” é o quanto o período ditatorial representou um desvio traumático na sua trajetória artistica e existencial, assim como de outros contemporâneos. Se realmente os militares não tocaram em Vandré, como o proprio afirmou em entrevistas, é inegável que o contexto de repressão e censura interrompeu de forma brutal uma trajetória publica que poderia ter legado uma contribuição ainda mais rica a tradição da canção de temática social.


Faixas
1 Na terra como no céu
(Geraldo Vandré)
2 Das terras de benvirá
(Geraldo Vandré)
3 Vem, vem
(Geraldo Vandré)
4 Canção primeira
(Geraldo Vandré)
5 De América
(Geraldo Vandré)
6 Sarabanda [A festa do Lobisomem]
(Tema livre de Geraldo Vandré)
7 Maria memória da minha canção
(Geraldo Vandré)
8 Bandeira branca
(Geraldo Vandré)

Para baixar: http://loronix.blogspot.com/2006/09/geraldo-vandre-das-terras-de-benvira.html

Obs.: Não conferi se esse link ainda está valendo e não tive tempo de procurar outro.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Convite Cultural

Galerinha, vai rolar nesse final de semana o Corredor Cultural de JF... Divirtam-se e vejam MATILDA no domingo,29/05, 16h, no Museu Ferroviário. É o esquenta pro show das Chicas 21h.


Aí vai o link com a programação:
http://www.pjf.mg.gov.br/funalfa/corredor_cultural/programa2011.pdf

Canção de protesto

Até Quando?
Gabriel O Pensador

Não adianta olhar pro céu, com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer e muita greve, você pode, você deve, pode crer
Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver
Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus sofreu não quer dizer que você tenha que sofrer
Até quando você vai ficar usando rédea?
Rindo da própria tragédia?
Até quando você vai ficar usando rédea? (Pobre, rico, ou classe média).
Até quando você vai levar cascudo mudo?
Muda, muda essa postura
Até quando você vai ficando mudo?
Muda que o medo é um modo de fazer censura.

Até quando você vai levando?
(Porrada! Porrada!)
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando?
(Porrada! Porrada!)
Até quando vai ser saco de pancada?

Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente, seu filho sem escola, seu velho tá sem dente
Cê tenta ser contente e não vê que é revoltante, você tá sem emprego e a sua filha tá gestante
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo, você que é inocente foi preso em flagrante!
É tudo flagrante! É tudo flagrante!

Refrão

A polícia matou o estudante, falou que era bandido, chamou de traficante.
A justiça prendeu o pé-rapado, soltou o deputado... e absolveu os PMs de vigário!

Refrão

A polícia só existe pra manter você na lei, lei do silêncio, lei do mais fraco: ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco.
A programação existe pra manter você na frente, na frente da TV, que é pra te entreter, que é pra você não ver que o programado é você.
Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar.
O cara me pede o diploma, não tenho diploma, não pude estudar.
E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar
Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá.
Consigo um emprego, começa o emprego, me mato de tanto ralar.
Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar.
Não peço arrego, mas onde que eu chego se eu fico no mesmo lugar?
Brinquedo que o filho me pede, não tenho dinheiro pra dar.
Escola, esmola!
Favela, cadeia!
Sem terra, enterra!
Sem renda, se renda!
Não! Não!!

Refrão

Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente.
A gente muda o mundo na mudança da mente.
E quando a mente muda a gente anda pra frente.
E quando a gente manda ninguém manda na gente.
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura.
Na mudança de postura a gente fica mais seguro, na mudança do presente a gente molda o futuro!
Até quando você vai ficar levando porrada, até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai ficar de saco de pancada?
Até quando você vai levando?

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Canções de Protesto

Trilogia Macabra: I - O Torturador

O torturador
difere dos outros
por uma patologia singular
— ser imprevisível
vai da infantilidade total
à frieza absoluta.

Como vivem recebendo
elogios e medalhas
como vivem subindo de posto,
pouco se importam pelos outros.
Obter confissões é uma arte
o que vale são os altos propósitos
o fim se justifica,
mesmo pelos meios mais impróprios.

Além de tudo o torturador,
agente impessoal que cumpre ordens superiores
no cumprimento de suas funções inferiores,
não está impedido de ser um pai extremoso
de ter certos rasgos
e em alguns momentos ser até generoso.

Além disso acredita que é macho, nacionalista,
que a tortura e a violência
são recursos necessários
para a preservação de certos valores
e se no fundo ele é um mercenário
sabe disfarçar bem isso
quando ladra.

Não se suja de sangue
não macera nem marca,
(a não ser em casos excepcionais)
o corpo de suas vítimas,
trabalha em ambientes assépticos
com distanciamento crítico
— não é um açougueiro, é um técnico —
sendo fácil racionalizar
que apenas põe a serviço da pátria
da civilização e da família
uma sofisticada tecnologia da dor
que teria de qualquer maneira
de ser utilizada contra alguém
para o bem de todos.


In: ALVERGA, Alex Polari de. Inventário de cicatrizes. Apres. Carlos Henrique de Escobar. 3.ed. São Paulo: Teatro Ruth Escobar; Rio de Janeiro: Comitê Brasileiro pela Anistia, s.d



sábado, 14 de maio de 2011

Martín Fierro, os gauchos e a payada (3)

Filme "Martín Fierro" de Leopoldo Torre Nilsson (diretor argentino)

Leopoldo Torre Nilsson (Buenos Aires, 5 de mayo de 1924 — Buenos Aires, 8 de septiembre de 1978) foi diretor e productor cinematográfico argentino.

A seguir, dois trechos no filme, exemplos de payada com versos do Martín Fierro, e presença do negro na nossa cultura, escassa e mínima. Aqui, o filho do negro que Martin Fierro matou anos antes por causa da zombaria dele perante a mãe (chamou ela de vaca no verso "Va...cayendo gente al baile". O negro lamenta na payada a morte do pai em desafio a facão e a humilhação da mãe.

http://www.youtube.com/watch?v=s9CC1bsGDAA&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=x-DcfvfOL9Y&NR=1