terça-feira, 9 de agosto de 2011

III Encontro de Estudos da Palavra Cantada

O III Encontro de Estudos da Palavra Cantada tem como objetivo central promover a reflexão sobre as múltiplas e heterogêneas modalidades da palavra cantada, a partir de abordagens que permitam apreender a interação entre suas dimensões verbal, musical, vocal e performática.

A programaçao inclui a conferência de abertura pelo professor e etnomusicólogo Anthony Seeger, da University of California em Los Angeles, cujas análises sobre as artes verbomusicais de povos indígenas do Brasil são referência para os interessados na matéria, e palestras, no encerramento, do professor Stéphane Hirschi, da Université de Valenciennes, especialista nas relações entre poesia e canção, e do professor e compositor José Miguel Wisnik, amplamente reconhecido por seu trabalho criativo e investigativo nos domínios literários e musicais.

Mais detalhes sobre o programa de palestras e dos pequenos recitais de artistas que serão oferecidos no final de cada dia do evento, assim como um formulário de inscriçao, encontram-se no seguinte endereço: http://palavracantada3.wordpress.com/.

O evento acontecerá no Rio de Janeiro, de 23 a 26 de agosto, no Salão Pedro Calmon, Fórum de Ciência e Cultura, Campus da UFRJ na Urca.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Submissão de resumos - IV Semana de Letras

O Centro Acadêmico de Letras informa que a submissão de resumos para apresentação na IV Semana de Letras acontecerá entre os dias 01 de julho e 10 de agosto de 2011. O evento acontecerá nos dias 19, 20 e 21 de outubro.
As regras para o envio estão no endereço:
www.semanadeletrasufjf.wordpress.com.

Atenciosamente,
Comissão Organizadora.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Avaliação final

Oficina: poesia e canção popular
(avaliação)

Apresentamos, em anexo, dois fragmentos do livro “Poema sujo”, de Ferreira Gullar. Ambos possuem interfaces musicais. O primeiro deles (p. 298-9) foi musicado por Milton Nascimento e resultou na canção “Bela Bela”. O segundo (p. 316-317) é um trecho que, conforme o próprio poema indica, deve ser cantado com a “Tocata” da Bachiana no. 2, de Villa-Lobos.

Após a audição das duas gravações e leitura dos trechos, avalie:

1) Ter participado dessa oficina o(a) deixou mais apto(a) para analisar elementos da interface entre música e poesia? Caso negativo, diga por quê. Caso afirmativo, indique alguns desses elementos, objetos de sua percepção na leitura e na audição propostas acima.

2) Apresente, de forma breve, as ideias que você tenha desenvolvido, a partir da participação na oficina, sobre as consequências do uso da canção, em sala de aula, para o ensino de literatura e/ou língua.

3) Faça uma breve avaliação através da qual considere aspectos positivos e negativos do trabalho proposto e desenvolvido na oficina.

4) Faça uma breve auto-avaliação, considerando sua frequência e sua participação nos encontros da oficina.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Vandré "Das Terras do Benvirá": Utopia e Barbárie na MPB

Segue abaixo um texto que eu postei há algum tempo num blog meu sobre música que anda jogado às traças. São impressões sobre um disco do Vandré feito já no exílio. Vai como contribuição sobre o tema do encontro da sexta-passada. Abraços!

(Edson Leão)

Apesar da minha filiação ao tropicalismo e ao rock, como algumas das minhas principais influências, sempre me impressionou a força épica que a voz e melodias de Geraldo Vandré (representante fundamental da “canção de protesto”) imprimiam a seus versos contundentes. Particularmente me marcou muito a intensidade e integridade do álbum “Canto Geral” (1968), ao passo que este “Nas terras do benvirá”, que ouvi pela primeira vez na mesma época em que conheci o anterior, sempre me pareceu um pouco inacessível. Arrastado, triste, sombrio e sempre em tom de lamento, ele não me conquistou nas primeiras tentativas, embora de tempos em tempos eu retornasse a ele, talvez por algum incomodo profundo que ele me causasse.


Hoje à luz de uma nova audição, quase três décadas após a aquisição do vinil, e talvez, sensibilizado pelo excepcional documentário “Utopia e Barbárie”( de Silvio Tendler) fui arrebatado exatamente pelos mesmos aspectos que me afastaram nas primeiras tentativas (mistérios da experiência estética!). Numa despretensiosa retomada desta obra, já nos primeiros minutos ela me soou como um dos mais dramáticos registros do sentimento de toda uma geração, diante da barbárie imposta pela ditadura.


Inevitável não me remeter ao mistério que cerca a figura do compositor, entre lendas (descartadas pelo próprio) sobre torturas (que teriam culminado em castração e na conseqüente loucura - também desmentidas por ele), o silêncio artístico de décadas (quebrado pela estranheza de uma canção em homenagem à Força Aérea), e o isolamento pessoal e em relação à música popular (já que segundo o próprio, ele teria se tornado ouvinte de música clássica, e se desinteressado pela MPB).


Respeitado o direito de um homem, de dar sua própria versão sobre sua história, ou mesmo o direito de silenciar sobre ela, me sinto no entanto, no também no direito de manifestar meus sentimentos ao ouvir novamente este desconcertante álbum.

Na minha impressão de ouvinte, poucos discos transmitem, com uma carga de dor tão profunda, o sentimento de uma geração que teve sonhos, liberdades e até vidas ceifadas pela ditadura.


O simples fato de ter sido gravado em pleno exílio, nos primeiros anos da década de 70 (os créditos são de 73, mas cheguei a achar referências de que teria sido gravado na França em 1970 e só lançado no Brasil, 3 anos mais tarde), já permitiria uma leitura nesse sentido, mas o principal aval para uma interpretação dessa natureza está nas características estéticas que predominam no LP.


A instrumentação, predominantemente arrastada e melancólica, compõe um tecido sombrio que flui como um lamento visceral que não pode (ou não quer) se conter e que parece não se esgotar em cada canção... parece antes, continuar mesmo após o fim de cada faixa, seja porque o sentimento segue na memória, após a audição, como um moto perpétuo... seja porque prossegue na canção seguinte, da mesma forma que os dias de uma tristeza não curada se sucedem quase indistintos para quem os vivencia.


A interpretação de Vandré que oscila entre o sussurro e o grito parece à todo momento um choro viril, como o de um guerreiro ferido em combate, em diálogo constante com a harmônica, de uma tristeza cortante, entrelaçada aos fraseados melancólicos dos violões, violas e aos eventuais vocais sobrepostos.


Em aparente contradição com o que o tratamento musical aponta, o texto da canção de abertura “Na terra como no céu”, anuncia: “Não viemos por teu pranto/nem viemos pra chorar/viemos ao teu encontro/e estamos no teu altar/vou seguir nosso caminho/que é também seu caminhar/na força do teu carinho/esperamos nos salvar/na terra como no céu/no sertão como no mar/nas serrar ou nas planuras/esperamos nos salvar/estando sempre altura/nos teus caminhos lutar/reparte entre nós o pão/diante do seu altar/a justiça e a riqueza/que fizemos por ganhar”(...).


A busca por justiça social que pautou os principais trabalhos sessentistas de Vandré se mntém como força motriz, mas o tom de súplica religiosa, não oculta um certo sentimento de impotência diante da realidade:”não deixa a gente passar/pela fome em tua mesa/não viemos por teu pranto/nem viemos pra chorar”. Curiosamente, a essa frase se segue um belissimo e sofrido vocal que arrepia por seu tom de lamento. Contradição, ou intencional efeito irônico?


É dificil não associar os versos sofridos que se seguem (na faixa que dá título ao disco) ao contexto de ditadura, de censura e o momento de um homem que canta no exílio: “O anel que tu me deste/eu guardei pra me ajudar/construi numa viola/de madeira o teu altar/o amor que tu me tinhas/eu roubei pra me salvar/toda hora em que a danada da saudade/me pegá/Joema dos olho claros/bem verdes da cor do mar/me dava tanta alegria/que eu não preciso sonhar/basta me lembrar agora/das coisas que deixei lá/Joema sempre esperando/na praia do grande mar/Waldomiro das estrelas/não podia se encontrar/tinha tudo que queria/dizia tudo há pintar/olhando pro céu de frente/perdido sempre em chegar/Waldomiro das estrelas/pedia para voltar”.


A certeza messiânica de quem escreveu “quem sabe faz a hora/ não espera acontecer”, ou “o terreiro lá de casa não se varre com vassoura/varre com ponta de sabre e bala de metralhadora”, dá lugar à perplexidade e a um desamparo que pede por redenção: “que faço agora Maria/que faço agora diz já/ de longe que eu ouço hoje/as coisas que vão voltar/em ti em ti e comigo/agora no Deus dará/das coisas de todo mundo/na vida do bendirá”


Mas o tom aguerrido do militante da “canção de protesto” permanece vivo em “Vem vem” : “morena saia da frente/que agora eu já vou passar/vem vem maria/vem vem joão/
vem virgulino meu capitão/eu canto canto/eu brigo a briga/porque sou forte e tenho razão/saia da minha frente/que agora eu quero passar/vai companheiro/vai meu irmão/no paraíso canta a canção/que diz da vida/que diz da morte/que anda solta no meu sertão/vem vem maria/vem vem joão/vem virgulino meu capitão/eu tomo a vida que esta na morte/se a morte as vezes é solução”. A retomada da figura mítica do cangaceiro pode sugerir uma analogia com a condição de marginalidade à qual fora relegada a resistência política ao regime. Contra a violência estatal, só a violência clandestina que se torna aos olhos da oficialidade, análoga ao “banditismo”?


E a dor do exílio salta de novo das entrelhinhas de “Canção primeira”, assim como a impossibilidade de ações efetivas que encontram seu substituto simbólico na “canção primeira/ livre e livradeira”: “A canção primeira/como a derradeira/não vá, te negar/A canção primeira/sem eira e nem beira/é só te lembrar/Na viola amiga,/que é chegada antiga/pra te acompanhar/Da canção primeira/livre e livradeira/que eu quero te dar/Compreende amiga/que eu não marque ainda/quando te encontrar/Que eu faça cumprida,/tanto quanto a vida/que foi só cantar/Dessa história antiga,/às vezes cantiga/pra eu poder contar/De ti companheira,/tu de corpo inteira/como eu pude amar/E perdoa amiga,/que eu não vá /correndo/hoje te abraçar/Nem cortar caminho,/nessa caminhada/que é pra te encontrar/Que eu guarde a esperança,/que vem vindo o dia/de poder voltar/Sem ter na chegada,/que morrer amada,/ou de amor matar”.


Se um dia teremos uma versão completa sobre a história desse grande artista da nossa canção e que possa desmentir ou confirmar as lendas que o cercam, é impossível prever. Mas o que parece certo após a audição de “Nas terras do benvirá” é o quanto o período ditatorial representou um desvio traumático na sua trajetória artistica e existencial, assim como de outros contemporâneos. Se realmente os militares não tocaram em Vandré, como o proprio afirmou em entrevistas, é inegável que o contexto de repressão e censura interrompeu de forma brutal uma trajetória publica que poderia ter legado uma contribuição ainda mais rica a tradição da canção de temática social.


Faixas
1 Na terra como no céu
(Geraldo Vandré)
2 Das terras de benvirá
(Geraldo Vandré)
3 Vem, vem
(Geraldo Vandré)
4 Canção primeira
(Geraldo Vandré)
5 De América
(Geraldo Vandré)
6 Sarabanda [A festa do Lobisomem]
(Tema livre de Geraldo Vandré)
7 Maria memória da minha canção
(Geraldo Vandré)
8 Bandeira branca
(Geraldo Vandré)

Para baixar: http://loronix.blogspot.com/2006/09/geraldo-vandre-das-terras-de-benvira.html

Obs.: Não conferi se esse link ainda está valendo e não tive tempo de procurar outro.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Convite Cultural

Galerinha, vai rolar nesse final de semana o Corredor Cultural de JF... Divirtam-se e vejam MATILDA no domingo,29/05, 16h, no Museu Ferroviário. É o esquenta pro show das Chicas 21h.


Aí vai o link com a programação:
http://www.pjf.mg.gov.br/funalfa/corredor_cultural/programa2011.pdf

Canção de protesto

Até Quando?
Gabriel O Pensador

Não adianta olhar pro céu, com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer e muita greve, você pode, você deve, pode crer
Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver
Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus sofreu não quer dizer que você tenha que sofrer
Até quando você vai ficar usando rédea?
Rindo da própria tragédia?
Até quando você vai ficar usando rédea? (Pobre, rico, ou classe média).
Até quando você vai levar cascudo mudo?
Muda, muda essa postura
Até quando você vai ficando mudo?
Muda que o medo é um modo de fazer censura.

Até quando você vai levando?
(Porrada! Porrada!)
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando?
(Porrada! Porrada!)
Até quando vai ser saco de pancada?

Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente, seu filho sem escola, seu velho tá sem dente
Cê tenta ser contente e não vê que é revoltante, você tá sem emprego e a sua filha tá gestante
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo, você que é inocente foi preso em flagrante!
É tudo flagrante! É tudo flagrante!

Refrão

A polícia matou o estudante, falou que era bandido, chamou de traficante.
A justiça prendeu o pé-rapado, soltou o deputado... e absolveu os PMs de vigário!

Refrão

A polícia só existe pra manter você na lei, lei do silêncio, lei do mais fraco: ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco.
A programação existe pra manter você na frente, na frente da TV, que é pra te entreter, que é pra você não ver que o programado é você.
Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar.
O cara me pede o diploma, não tenho diploma, não pude estudar.
E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar
Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá.
Consigo um emprego, começa o emprego, me mato de tanto ralar.
Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar.
Não peço arrego, mas onde que eu chego se eu fico no mesmo lugar?
Brinquedo que o filho me pede, não tenho dinheiro pra dar.
Escola, esmola!
Favela, cadeia!
Sem terra, enterra!
Sem renda, se renda!
Não! Não!!

Refrão

Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente.
A gente muda o mundo na mudança da mente.
E quando a mente muda a gente anda pra frente.
E quando a gente manda ninguém manda na gente.
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura.
Na mudança de postura a gente fica mais seguro, na mudança do presente a gente molda o futuro!
Até quando você vai ficar levando porrada, até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai ficar de saco de pancada?
Até quando você vai levando?

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Canções de Protesto

Trilogia Macabra: I - O Torturador

O torturador
difere dos outros
por uma patologia singular
— ser imprevisível
vai da infantilidade total
à frieza absoluta.

Como vivem recebendo
elogios e medalhas
como vivem subindo de posto,
pouco se importam pelos outros.
Obter confissões é uma arte
o que vale são os altos propósitos
o fim se justifica,
mesmo pelos meios mais impróprios.

Além de tudo o torturador,
agente impessoal que cumpre ordens superiores
no cumprimento de suas funções inferiores,
não está impedido de ser um pai extremoso
de ter certos rasgos
e em alguns momentos ser até generoso.

Além disso acredita que é macho, nacionalista,
que a tortura e a violência
são recursos necessários
para a preservação de certos valores
e se no fundo ele é um mercenário
sabe disfarçar bem isso
quando ladra.

Não se suja de sangue
não macera nem marca,
(a não ser em casos excepcionais)
o corpo de suas vítimas,
trabalha em ambientes assépticos
com distanciamento crítico
— não é um açougueiro, é um técnico —
sendo fácil racionalizar
que apenas põe a serviço da pátria
da civilização e da família
uma sofisticada tecnologia da dor
que teria de qualquer maneira
de ser utilizada contra alguém
para o bem de todos.


In: ALVERGA, Alex Polari de. Inventário de cicatrizes. Apres. Carlos Henrique de Escobar. 3.ed. São Paulo: Teatro Ruth Escobar; Rio de Janeiro: Comitê Brasileiro pela Anistia, s.d



sábado, 14 de maio de 2011

Martín Fierro, os gauchos e a payada (3)

Filme "Martín Fierro" de Leopoldo Torre Nilsson (diretor argentino)

Leopoldo Torre Nilsson (Buenos Aires, 5 de mayo de 1924 — Buenos Aires, 8 de septiembre de 1978) foi diretor e productor cinematográfico argentino.

A seguir, dois trechos no filme, exemplos de payada com versos do Martín Fierro, e presença do negro na nossa cultura, escassa e mínima. Aqui, o filho do negro que Martin Fierro matou anos antes por causa da zombaria dele perante a mãe (chamou ela de vaca no verso "Va...cayendo gente al baile". O negro lamenta na payada a morte do pai em desafio a facão e a humilhação da mãe.

http://www.youtube.com/watch?v=s9CC1bsGDAA&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=x-DcfvfOL9Y&NR=1

Martín Fierro, os gauchos e a payada (2)

A payada

A payada, no Paraguay, no Uruguai, sul do Brasil e Argentina, e a paya no Chile, é uma arte pertencente à cultura hispánica, que adquiriu un grande desenvolvimento no Cone Sul da América, no qual uma pessoa, o payador, improvisa um recitado em rima, cantado e acompañado de um violão (guitarra espanhola). Quando a payada é em dupla ou duetto se denomina contrapunto e toma a forma de um desafio cantado a dois violões (guitarras espanholas), no qual cada payador deve responder payando as perguntas do seu concorrente, para depois passar a perguntar do mesmo modo. Estas payadas em dupla costumam durar horas, às vezes dias, e terminam quando um dos cantores não responde imediatamente à pergunta do seu concorrente.

Em 23 de julho de 1884 se faz em Montevideu a famosa payada entre Juan Nava e Gabino Ezeiza. Em homenagem, na Argentina se estableceu como o Día do Payador.

Em 10 de novembro de 1834 nasce José Hernández, autor do Martín Fierro. Por ello se festeja esse dia na Argentina como Dia da Tradição. Tem vários concursos com cavalos, doma, payadas, etc.

A seguir, exemplos de payadas (em espanhol e português) e desafio de payada com rap em espanhol no Uruguai em 2010.

http://www.youtube.com/watch?v=b_HhJwWc9Os&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=CMDS3RVn4h0&feature=related

http://www.recantodasletras.com.br/audios/poesias/3670

Martín Fierro, os gauchos e a payada (1)

A seguir, publico alguns assuntos tratados respeito do Martín Fierro, os gauchos e a payada:

Os gauchos:

Etimología da palavra gaucho (Tradução Wikipedia em espanhol): Existem várias teorías sobre a origem del vocábulo, entre outras hipoteses, que pode ter sido derivado do quichua "huachu" (órfão, vagabundo) ou do árabe "chaucho" (um chicote utilizado no arado de animais). No árabe mudéxar existia a palavra "hawsh" para significar ao pastor e ao sujeito vagabundo, por outra parte tem se assinalado a provável influência de inmigrantes moriscos clandestinos na genese da gauchagem, tal qual o indicava Diego de Góngora nos seus informes capitulares para a coroa espanhola. Ainda hoje em Andalucia —especialmente na lingua cigana caló— se fala em "gacho" para significar ao camponês e, de modo figurativo, ao amante de uma mulher.

No século XVIII Concolorcorvo fala de "gauderios" quando fala de gauchos ou huasos, gauderio parece ser una espécie de "latinização" das palavras citadas, latinização associada ao termo latino —muito conhecido então, já que era usual na liturgia católica— gaudeus, que significa "gozo", e mesmo "libertinagem", ou seja a palavra "gaucho" como a palavra "huaso" —metatese uma da outra— parecem induvitávelmente plurietimológicas, e forjadas em um contexto temporal e territorial específico, o âmbito ganadeiro do Cone Sul, na região pampeana ou pampa argentina.

O primeiro uso documentado do termo data dos anos da indepêndencia argentina, declarada em 9 de julho de 1816. Porém estaria sendo utilizado desde 1770.

A origem da palavra gaucho, como a de tantas otras do Novo Mundo, tem dado lugar as mais variadas e não poucas vezes alucinantes teorias filológicas".

As primeras referências escritas a los gauchos se encuentran a comienzos del siglo XVII, utilizando de termos como "mancebos", "mancebos da tierra", "moços perdidos", "moços vagabundos", "crioulos da tierra", "changadores".

Em meados do século XVII começou a se utilizar a palabra "gauderio" para designar a esse grupo social. Pouco depois aparece a palavra "gaucho", encontrada pela primera vez escrita em um documento oficial da Banda Oriental (hoje Uruguai) em 1771, sendo já de uso generalizado para o fim do século XVIII.

A grande região do Cone Sul, apenas conhecida pelas autoridades espanholas e portuguesas também era un refugio para fugitivos das leis opressivas das autoridades coloniais e poscoloniais e escravos fugidos.

Nas últimas décadas do século XVIII e primeiras do século XIX a palavra gaucho se extendeu por toda a região, para designar aos trabalhadores livres que viviam do gado bovino selvagem (ou chimarrão, "ganado cimarrón") das pampas. Inicialmente o termo era usado pejorativamente, mas já na segunda e terceira década do século XIX, a palavra começou a perder sua conotação pejorativa, por conta da causa federalista iniciada por José Artigas, héroi uruguaio, liderando uma aliança de províncias integrada pelas províncias de Córdoba, Corrientes, Entre Ríos, Misiones (incluindo nessa época também às Missões Orientais), a Província Oriental e a de Santa Fe, os gauchos fizeram parte dos exércitos federais contra os unitários (elite letrada), que queriam o poder concentrado em Buenos Aires.

O amor em perspectiva: Dois discursos masculinos no tango de Goyeneche e dois discursos femininos na dor de cotovelo de Maysa (2)

A seguir, as músicas que correspondem a esse assunto:

Ouça(1957) Letra: Maysa. Música: Maysa.

Ouça, vá viver
Sua vida com outro bem
Hoje eu já cansei
De pra você não ser ninguém

O passado não foi o bastante
Pra lhe convencer
Que o futuro seria bem grande
Só eu e você

Quando a lembrança
Com você for morar
E bem baixinho
De saudade você chorar

Vai lembrar que um dia existiu
Um alguém que só carinho pediu
E você fez questão de não dar
Fez questão de negar

Quando a lembrança
Com você for morar
E bem baixinho
De saudade você chorar

Vai lembrar que um dia existiu
Um alguém que só carinho pediu
E você fez questão de não dar
Fez questão de negar

Para escutar OUÇA: http://www.youtube.com/watch?v=zdI-nB18QIw

Meu Mundo Caiu (1958) Letra: Maysa. Música: Maysa.

Meu mundo caiu
E me fez ficar assim
Você conseguiu
E agora diz que tem pena de mim

Não sei se me explico bem
Eu nada pedi
Nem a você nem a ninguém
Não fui eu que caí

Sei que você me entendeu
Sei também que não vai se importar
Se meu mundo caiu
Eu que aprenda a levantar

Para escutar MEU MUNDO CAIU (video televisão japonesa):
http://www.youtube.com/watch?v=BgkEb_EHaP0&feature=related

E também MEU MUNDO CAIU (melhor som):
http://www.youtube.com/watch?v=f_2MtwlnLg0&feature=related

O amor em perspectiva: Dois discursos masculinos no tango de Goyeneche e dois discursos femininos na dor de cotovelo de Maysa (1)

A seguir, publico o falado na oficina no dia 13/05/2011 sobre este assunto.

Tango Uno (1950) por Roberto Goyeneche (1926-1994)

Uno (1950) Letra: Enrique Santos Discépolo. Música: Mariano Mores.

Uno busca lleno de esperanzas
el camino que los sueños
prometieron a sus ansias.
Sabe que la lucha es cruel
y es mucha pero lucha y se desangra
por la fe que lo empecina...
Uno va arrastrándose entre espinas
y en su afán de dar su amor,
sufre y se destroza hasta entender
que uno se ha quedao sin corazón...
Precio de castigo que uno entrega
por un beso que no llega
a un amor que lo engañó...
¡Vacío ya de amar y de llorar
tanta traición!
Si yo tuviera el corazón...
(El corazón que di...)
Si yo pudiera como ayer
querer sin presentir...
Es posible que a tus ojos
que me gritan tu cariño
los cerrara con mis besos...
Sin pensar que eran como esos
otros ojos, los perversos,
los que hundieron mi vivir.
Si yo tuviera el corazón...
(El mismo que perdí...)
Si olvidara a la que ayer
lo destrozó y... pudiera amarte...
me abrazaría a tu ilusión
para llorar tu amor...
Pero, Dios te trajo a mi destino
sin pensar que ya es muy tarde
y no sabré cómo quererte...
Déjame que llore
como aquel sufre en vida
la tortura de llorar su propia muerte...
Pura como sos, habrías salvado
mi esperanza con tu amor...
Uno está tan solo en su dolor...
Uno está tan ciego en su penar....
Pero un frío cruel
que es peor que el odio
-punto muerto de las almas,
tumba horrenda de mi amor-
maldijo para siempre
y me robó... toda ilusión...

Para escutar UNO: http://www.youtube.com/watch?v=Gf2BmOwMFlg

Tango Naranjo en Flor (1944)por Roberto Goyeneche (1926-1994)

Era más blanda que el agua,
que el agua blanda.
Era más fresca que el río,
naranjo en flor.
Y en esa calle de estío,
calle perdida,
dejó un pedazo de vida
y se marchó.

Primero hay que saber sufrir,
después amar, después partir
y, al fin, andar sin pensamientos.
Perfume de naranjo en flor,
promesas vanas de un amor
que se escaparon con el viento.

Después, ¿qué importa del después?
Toda mi vida es el ayer
que me detiene en el pasado.

¡Eterna y vieja juventud,
que me ha dejado acobardado
como un pájaro sin luz!

¿Qué le habrán hecho mis manos?
¿Qué le habrán hecho
para dejarme en el pecho
tanto dolor?
Dolor de vieja arboleda,
canción de esquina
con un pedazo de vida,
naranjo en flor.

Para escutar NARANJO EN FLOR: http://www.youtube.com/watch?v=HUs8HNeTlD8

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Chamada de publicação - Darandina Revisteletrônica

Ementa:

Apontamentos sobre a canção brasileira na interface literatura/música


Tem sido cada vez maior o interesse em ler e pesquisar a canção brasileira de
modo interdisciplinar e interdepartamental. Tendo em vista a proliferação de debates
atuais sobre o tema em questão sugerimos discutir e problematizar, em Letras, a
concepção urbana de canção, na clave de reflexão da crítica cultural contemporânea. O
objetivo é pensar a palavra cantada a partir do final dos anos 60 na interface literatura/
música, nos seguintes aspectos: memória, voz, corpo, performance, identidade, nação,
mercado e suportes midiáticos.

Os trabalhos para a 7ª edição serão recebidos até 13 de maio de 2011.

Solicitamos aos nossos colaboradores que observem atentamente as normas técnicas para publicação, disponíveis no site, pois elas sofreram algumas alterações. Também solicitamos aos autores que, ao enviarem seus trabalhos, escrevam no campo assunto” do e-mail o título da ementa desta edição - “Apontamentos sobre a canção brasileira na interface literatura/música”.

Obs.: Os graduandos e os graduados precisam do parecer de um professor do PPG - Estudos Literários.

Comissão editorial da Darandina Revisteletrônica

http://www.ufjf.br/darandina/

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Marcelo Camelo




"Marcelo de Souza Camelo (Rio de Janeiro, 4 de fevereiro de 1978) é um compositor, cantor, guitarrista, violinista e poeta brasileiro. Foi vocalista e guitarrista da banda de rock alternativo Los Hermanos. Atualmente, o cantor segue em carreira solo."

(Fonte: Wikipedia)









DESPEDIDA
Eu não sou daqui também marinheiro
Mas eu venho de longe
E ainda do lado de trás da terra além da missão comprida
Vim só dar despedida

Filho de sol poente
Quando teima em passear
desce de sal nos olhos doente da falta de voltar

Filho de sol poente
Quando teima em passear
desce de sal nos olhos doente da falta que sente do mar
Vim só dar despedida


SAMBA A DOIS
Quem se atreve a me dizer do que é feito o samba?
Quem se atreve a me dizer?

Não, eu não sambo mais em vão
O meu samba tem cordão
O meu bloco tem sem ter e ainda assim
Sambo bem a dois por mim
Bambo e só, mas sambo, sim
Sambo por gostar de alguém, gostar de

Me lavra a alma, me leva embora
Deixa haver samba no peito de quem...(chora)

...se atreve a me dizer
Do que é feito o samba ?

Quem me ensinou a te dizer
"Vem que passa o teu sofrer"
Foi mais um que deu as mãos entre nós dois
Eu entendo o seu depois
Não me entenda aqui por mal
Mas pro samba foi vital falar em...

Me laça a alma, me leva agora
Já que um bom samba não tem lugar nem...(hora)

...se atreva a me dizer
Do que é feito o samba
Nem se atreva a me dizer


TEM MAIS SAMBA - Chico Buarque
Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer

Vem que passa
Teu sofrer
Se todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver


terça-feira, 3 de maio de 2011

Citando Chico

Aproveito as recentes citações do Chico Buarque postadas pela Wal no blog para retomar outro texto dele, que comentei em um dos primeiros encontros da oficina. "Nem toda loucura é genial, nem toda lucidez é velha" foi publicado no jornal Última Hora, em 09/12/68. O texto situa um momento de embates e contradições na MPB propício para modalizar questões da cultura que costumam levantar polêmicas e demarcações de posição. Podemos pensar isso em função do que estudamos agora: rap, funk e literatura da periferia, não acham?
Estava mal chegando a São Paulo, quando um repórter me provocou: "Mas como, Chico, mais um samba? Você não acha que isso já está superado?" Não tive tempo de me defender ou de atacar os outros, coisa que anda muito em voga. Já era hora de enfrentar o dragão, como diz o Tom. Enfrentar as luzes, os cartazes, e a platéia, onde distingui um caro colega regendo um coro pra frente, de franca oposição. Fiquei um pouco desconcertado pela atitude do meu amigo, um homem sabidamente isento de preconceitos. Foi-se o tempo em que ele me censurava amargamente, numa roda revolucionária, pelo meu desinteresse em participar de uma passeata cívica contra a guitarra elétrica. Nunca tive nada contra esse instrumento, como nada tenho contra o tamborim. O importante é ter Mutantes e Martinho da Vila no mesmo palco.

Mas, como eu ia dizendo, estava voltando da Europa e de sua música estereotipada, onde samba, toada etc. são ritmos virgens para seus melhores músicos, indecifráveis para seus cérebros eletrônicos. "Só tenho uma opção, confessou-me um italiano - sangue novo ou a antimúsica. Veja, os Beatles, foram à Índia..." Donde se conclui como precipitada a opinião, entre nós, de que estaria morto o nosso ritmo, o lirismo e a malícia, a malemolência. É certo que se deve romper com as estruturas. Mas a música brasileira, ao contrário de outras artes, já traz dentro de si os elementos de renovação. Não se trata de defender a tradição, família ou propriedade de ninguém. Mas foi com o samba que João Gilberto rompeu as estruturas da nossa canção. E se o rompimento não foi universal, culpa é do brasileiro, que não tem vocação pra exportar coisa alguma. Quanto a festival, acho justo que estejam todos ansiosos por um primeiro prêmio. Mas não é bom usar de qualquer recurso, nem se deve correr com estrondo atrás do sucesso, senão ele se assusta e foge logo. E não precisa dar muito tempo para se perceber "que nem toda loucura é genial, como nem toda lucidez é velha."


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Para refletir:
As expressões culturais produzidas nas periferias pobres das metrópoles brasileiras contribuem para (re)significar o imaginário nacional?

A periferia entra em cena

"Quando voçê vê um fenômeno como o rap, isso é de certa forma uma negação da canção tal como a conhecemos". (Chico Buarque)

"Talvez tenha razão quem disse que a canção, como a conhecemos, é um fenômeno próprio do século passado, tal é a quantidade de releituras, de compilações, de relançamentos, de gente cantando clássicos - e isso no mundo inteiro". (Chico Buarque)

"No Brasil, isso é nítido. Noel Rosa formatou essa música nos anos 30. Ela vigora até os anos 50 e aí vem a bossa nova, que remodela tudo - e pronto". (Chico Buarque)

"A minha geração, que fez aquelas canções todas, com o tempo só aprimorou a qualidade da sua música. Mas o interesse hoje por isso parece pequeno. Por melhor que seja, por mais aperfeiçoada que seja, parece que não acrescenta grande coisa ao que já foi feito". (Chico Buarque)

"Acho esse fenômeno do rap muito interessante. Não só o rap em si, mas o significado da periferia se manifestando. Tem uma novidade aí". (Chico Buarque)

"Isso por toda parte, mas no Brasil, que eu conheço melhor, mesmo as velhas canções de reivindicação social, as marchinhas de Carnaval meio ingênuas, aquela história de 'lata d'água na cabeça' etc. e tal, normalmente isso era feito por gente de classe média. O pessoal da periferia se manifestava quase sempre pelas escolas de samba, mas não havia essa temática social muito acentuada, essa quase violência nas letras e na forma que a gente vê o rap. Esse pessoal junta uma multidão. Tem algo aí". (Chico Buarque)
  • Os fragmentos acima foram retirados de entrevistas concedidas por Chico Buarque. Disponíveis em <http://www.chicobuarque.com.br/texto/menuentrevistas.htm>, acesso em 27/04/2011. Disponíveis ainda em "Cinema-Canção", ensaio de Francisco Bosco, publicado em NESTROVSKI, Arthur. (Org). Lendo Música - 10 ensaios sobre 10 canções. São Paulo: Publifolha, 2007.

"Muita gente tem ojeriza com coisas que acontecem no Brasil, como o axé music, a música do carnaval da Bahia ou o funk carioca. São elitistas com medo e vergonha de de misturar com o que vem 'de baixo'." (Caetano Veloso)
  • Fragmento retirado de Bravo, junho de 2005, p.74.

"O funk carioca é nossa maior revolução cultural dos últimos tempos. O pancadão é uma evolução dionísica da contestação". (Lobão)
  • Fragmento retirado de Bravo, junho de 2005, p.76.

"Assim como o baião de Luiz Gonzaga, o funk descreve como crônica todo um universo próprio, com suas vestimentas, danças e gírias próprias. O Funk soube dar o pulo do gato, transformando o Miami bass numa batida única. Quem na história da música eletrônica usa samples de berimbau e de atabaque daquela maneira? do software aos soundsystems dos bailes, passando pela maneira roots de programar a bateria eletrõnica, tudo se deu como na história do dub jamaicano. o gosto estético dos que produzem funk é ditado por eles mesmos, calcado em sua verdade". (Lucas Santanna)
  • Fragmento retirado de Bravo, junho de 2005, p.77.

"A capoeira não vem mais, agora reagimos com a palavra (...)" (Ferréz. 2005, p.9)

"Cala a boca, negro e pobre aqui não tem vez! Cala a Boca!
Cala a boca uma porra, agora a gente fala, agora a gente canta, e na moral agora a gente escreve." (Ferréz. 2005, p. 9)

"Não somos o retrato, pelo contrário, mudamos o foco e tiramos nós mesmos a nossa foto." (Ferréz.2005, p. 9)

"A Literatura marginal, sempre é bom frisar, é uma literatura feita por minorias, sejam elas raciais ou socioeconômicas. Literatura feita à margem dos núcleos centrais do saber e da grande cultura nacional, isto é, de grande poder aquisitivo. Mas alguns dizem que sua principal característica é a linguagem, é o jeito como falamos, como contamos a história (...)". (Ferréz.2005, p. 12)
  • Fragmentos retirados de: FERRÉZ. (Org.). Literatura marginal: talentos da escrita periférica. Rio de janeiro: Agir, 2005.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Cartola, no moinho do mundo

"Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita em sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo.


Eu fiz o ninho. Te ensinei o bom caminho. Mas quando a mulher não tem brio, é malhar em ferro frio.



Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o velho samba de Cartola; Na Floresta (música de Sílvio Caldas).


Esse Cartola! Desta vez, está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei Sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: “Tenho um novo amor”, é como se desse a senha pela renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.

A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem me observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.

Em Tempos Idos, o divino Cartola, como o qualificou Lúcio Rangel, faz o histórico poético da evolução do samba, que se processou, aliás, com a sua participação eficiente:


Com a mesma roupagem que saiu daqui exibiu-se para a Duquesa de Kent no Itamaraty.



Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar o seu samba Quem Me Vê Sorrir (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockowski não lhe fez nenhum favor: reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes de nossa população. Coisa que contagiou a ilustre Duquesa.

* * *
Mas então eu fiquei parado, ouvindo a filosofia céptica do Mestre Cartola, na voz de Sílvio Caldas. Já não me lembrava o compromisso que tinha de cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não. Cartola devia estar muito ferido para dizer coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranqüilo, Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. “O mundo é um moinho...” O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar em lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação."






Pessoal, acima, a crônica do Drummond sobre o Cartola que ficamos de postar aqui no blog. Abaixo, a canção "O mundo é um moinho", que o Drummond cita na crônica, mas que, infelizmente, não ouvimos hoje. Para mim, a mais bonita dentre as cinco do Cartola que incluimos na nossa apresentação. Abraços a todos!




Ainda é cedo, amor


Mal começaste a conhecer a vida


Já anuncias a hora de partida


Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida


Embora eu saiba que estás resolvida


Em cada esquina cai um pouco a tua vida


Em pouco tempo não serás mais o que és


Ouça-me bem, amor


Preste atenção, o mundo é um moinho


Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.


Vai reduzir as ilusões a pó


Preste atenção, querida


De cada amor tu herdarás só o cinismo


Quando notares estás à beira do abismo


Abismo que cavaste com os teus pés